ARTIGO DE OPINIÃO: Empoderar os cidadãos através da literacia digital

02/07/2022 19:30

Nos dias de hoje, a literacia em Saúde conjetura-se como uma necessidade social emergente uma vez que baixos níveis de Literacia em Saúde contribuem para comportamentos menos preventivos entre os cidadãos e consequentemente para a diminuição da qualidade de vida da população. Isso, traduz-se num maior número de episódios de urgência e de internamentos hospitalares, o que representa um maior encargo social e financeiro [1]. 

A Literacia em Saúde é definida pela Organização Mundial de Saúde como “a capacidade humana de obter, processar e compreender informação elementar em Saúde, de utilizar adequadamente os serviços de saúde e de tomar as decisões corretas em Saúde“ [2].

Em Portugal os estudos revelaram que existe um elevado número de pessoas com baixos níveis de literacia, particularmente os idosos, com doenças crónicas, com baixos níveis de escolaridade e baixos rendimentos [3].

Existe, pois, uma forte evidência de que a Literacia em saúde contribui não só para a promoção da saúde, mas também para a eficácia e eficiência dos serviços de saúde [2]. 

Porém, alguns fatores podem ser influenciadores da literacia, tais como a qualidade da informação; as estratégias de divulgação e até mesmo a cultura e crenças dos cidadãos. Além disso, a heterogeneidade territorial em relação aos níveis de Literacia em Saúde aumenta as desigualdades regionais em saúde, uma preocupação partilhada entre os vários governos [2].

Atualmente, o peso social das comorbidades, o aumento das doenças crónicas e os crescentes constrangimentos orçamentais dos sistemas de saúde estão a intensificar a pressão política para a implementação de estratégias sustentáveis [4].

Desta forma, as iniciativas de Literacia em Saúde respondem a uma necessidade social emergente de fomentar o envolvimento dos cidadãos nos seus próprios cuidados de saúde. Assim, a Literacia Digital pode contribuir fortemente para a redução das desigualdades regionais [5].

No âmbito da Saúde, a Literacia digital refere-se à capacidade de utilizar, explorar, compreender e avaliar a informação em saúde facultada pelas ferramentas digitais, para enfrentar adequadamente uma situação de saúde [2].

Se tivermos em conta, a variedade de possibilidades oferecidas pelas tecnologias digitais, bem como a crescente importância social das ferramentas informáticas e digitais, as ações para melhorar a Literacia digital em Saúde surgem como uma oportunidade sem paralelo, não só para proteger e promover a Saúde Pública, através da prevenção de doenças e da promoção da Saúde, mas também, para combater as desigualdades regionais relacionadas com a saúde [2]. 

Porém, no que diz respeito à utilização de ferramentas de Literacia Digital para a Saúde, duas preocupações devem ser tidas em consideração. Por um lado, a acessibilidade ao mundo digital pode ser limitada, sobretudo para os mais idosos ou pessoas com deficiências, por outro lado, o acesso a informação fidedigna uma vez que, devido à significativa quantidade de conteúdos digitais, está a tornar-se cada vez mais difícil distinguir fontes digitais confiáveis. O acesso a informação fidedigna sobre saúde representa um direito humano fundamental, contudo, a divulgação de informação não é só por si suficiente, é essencial capacitar o cidadão para o uso dessa mesma informação nos momentos críticos de decisão [2].

A mudança de comportamentos não é um processo simples. No entanto, as soluções de eHealth (saúde digital) podem ajudar a quebrar algumas resistências, potenciando o nível de envolvimento dos cidadãos. Através destas ferramentas digitais, os cidadãos não só se podem apresentar mais informados sobre a sua saúde, como também são impulsionados para melhores capacidades de autogestão da saúde [2]. 

Uma das ferramentas em eHealth consideradas de maior utilidade para o cidadão é a App MySNS criada para garantir a proximidade com o utente e manter a transparência dos serviços prestados. O MySNS é uma ferramenta que permite consultar notícias do Serviço Nacional de Saúde, consultar informação de saúde, disponibilizar uma lista e mapa instituições de saúde (Hospitais, Cuidados de Saúde Primários e Farmácias), avaliação da qualidade e satisfação do SNS pelo cidadão e consulta de informação do Centro de Contacto SNS 24. Esta aplicação móvel possibilita ainda a consulta do tempo médio de espera nas instituições hospitalares do Serviço Nacional de Saúde. O utilizador pode consultar, por instituição, o tempo médio de atendimento no serviço de urgências [6].

A App SNS 24 é uma aplicação móvel que permite ao cidadão aceder a um vasto conjunto de informações e serviços digitais de saúde. Nela, pode aceder-se a diferentes serviços tais como o Boletim de vacinas; Receitas médicas; Cartão ADSE; Testamento Vital; Certificado COVID; Teleconsulta; Referenciações clínicas; Pedido de Renovação de medicação Habitual; Acesso à aplicação Telemonit SNS24; Acesso ao portal do SNS24, entre muitos outros [6].

Assim, podemos perceber que as inovações tecnológicas quando bem utilizadas, podem ser de grande valia na busca por formas eficientes de promover o bem-estar do cidadão. Com o advento da internet, os profissionais têm agora possibilidades inovadoras de facilitar o acesso aos serviços de saúde e tratamentos. Esta é uma realidade que deve crescer ainda mais nos próximos anos, com o aperfeiçoamento e a invenção de novos equipamentos, interpretação e monitorização automática de dados, novos sistemas de transmissão de informações e partilha de exames em tempo real, mesmo à distância [7].

Referências

[1] Espanha, R., Ávila, P. & Mendes, R.V. (2016). Literacia em Saúde em Portugal: Relatório síntese. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

[2] Direção-Geral da Saúde (2019). Manual de boas práticas. Literacia em Saúde. Capacitação dos profissionais de saúde. Lisboa. Portugal.

[3] Yamaguchi, M. U., de Barros, J. K., de Barros Souza, R. C., Bernuci, M. P., & de Oliveira, L. P. (2020). O papel das mídias digitais e da literacia digital na educação não-formal em saúde (The role of digital media and digital literacy in non-formal health education). Revista Eletrônica de Educação14, 3761017.

[4] Goeman, Dianne & Conway, Sue & Norman, Ralph & Morley, Jo & Weerasuriya, Rona & Osborne, Richard & Beauchamp, Alison. (2016). Optimising Health Literacy and Access of service provision to community dwelling older people with diabetes receiving home nursing support. Journal of Diabetes Research. 2016. 10.1155/2016/2483263. 

[5] Netto, J. T., Pimentel, Z.A., & Romano, M.R.V.R. (2022). Inclusão digital e literacia em saúde: uma experiência educativa em tempos de pandemia do Covid-19. Research, Society and Development, 11(3), e11011326415-e11011326415.

[6] https://www.spms.min-saude.pt/2019/04/mysns/

[7]https://www.faculdadeide.edu.br/blog/saude-digital-o-que-e-e-quais-sao-os-beneficios/

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