Culturismo: Bernardo Lourenço diz não haver «lugar para mais nada» a não ser vitória em Espanha

11/06/2022 19:30

Bernardo Lourenço, natural de Sátão, tem 24 anos de idade e é atualmente culturista e personal trainer. Começou a treinar há cerca de sete anos e a competir há quatro. Pelo caminho, tornou-se bicampeão nacional e espera, agora, ganhar o cartão profissional – Pro Card. O bicampeão esteve à conversa com o Viseu Now e partilhou um pouco do seu percurso, rotinas e ambições.

Como surgiu o interesse pela modalidade? 

Sempre pratiquei desporto, sempre gostei de fazer atividade física desde pequeno. Aos 17/18 anos comecei a praticar musculação pela experiência e aprendi a gostar imenso de toda a rotina que era necessária para ganhar massa muscular. Além de ser algo que me fazia sentir realizado todos os dias, era também uma terapia mental. O espaço, neste caso o ginásio, era o local em que todos os problemas desapareciam na minha cabeça e que apenas uma coisa era importante, dar o máximo de mim todos os dias. O meu corpo respondia muito bem à hipertrofia e comecei a interessar-me cada vez mais pelo processo, pois trabalhava e via os resultados mês após mês. Comecei a informar-me e a estudar cada vez mais na área de hipertrofia, nutrição, culturismo e apaixonei-me com tudo isto. Sempre fui muito competitivo naquilo que fazia, principalmente no desporto. Sempre quis ser o melhor no mundo da competição. Então, dia após dia, fui melhorando nessas áreas procurando ser a minha melhor versão, 1% melhor todos os dias. Comecei a procurar competições, conteúdo digital, atletas, treinadores. Aos 19 anos comecei a ser acompanhado pelo Tiago T3, muito conhecido nacionalmente na área de culturismo e, a partir daí, começámos a fazer tudo a 100%. Treinos, alimentação, descanso. Tudo controlado ao pormenor. Marcámos data para competir pela primeira vez em 2018 e foi aí que dei inicio à minha jornada no mundo das competições de culturismo.

Que exercícios realiza e durante quanto tempo por dia ou por semana? 

Neste momento tenho aeróbico em jejum todos os dias, durante uma hora. Musculação, treino de segunda a sábado. Os treinos costumam ter duração de uma a duas horas. Não há exercícios específicos. Isso tudo vai sendo alternado conforme aquilo que preciso de melhorar dentro do meu fisico, quais os membros musculares mais fortes e quais os mais fracos. Vamos ao encontro também daquilo que os jurados procuram quando somos avaliados nas competições.

Que cuidados especiais tem com o corpo? 

Tudo. Alimentação é toda pesada, grama por grama. Controlo o sal, controlo a água, etc. Nos treinos, temos divisões de grupos musculares por dia, de maneira a que consiga tirar o maior rendimento possível deles e melhorar fisicamente. O descanso também é controlado, durante o dia e as horas de sono. A suplementação também, ter as vitaminas, minerais, aminoácidos essenciais para que o corpo recupere e absorva os alimentos com melhor eficácia.

De que forma funcionam os campeonatos ou competições nacionais e internacionais, para as pessoas que não estão familiarizadas com este desporto?

As competições de culturismo são separadas por várias categorias. Eu compito na maior categoria de todas que é aquilo que chamamos Bodybuilding Open. De 102+kgs para cima de limite de peso. A categoria mais pesada de culturismo, a mais extremista. Somos avaliados juntamente com outros atletas em palco. Avaliam a quantidade de massa muscular, a condição muscular, isto é, quem tem menos percentual de gordura, mais maturidade muscular, a estrutura, a linha (fator genético), a proporção, a simetria, entre outros. Existe pesagens que costumam ocorrer um ou dois dias antes da prova para os atletas se inscreverem lá pessoalmente caso não se tenham inscrito antes pela internet, onde nos pesamos e vemos em que categoria encaixamos melhor.

Que competições destaca, no seu percurso?

Participei pela primeira vez, com 20 anos, em 2018 na P2K onde consegui um terceiro lugar na minha primeira prova. Algumas semanas depois, competi novamente mas num campeonato nacional da Pfbb Portugal, onde fui campeão nacional junior e vice campeão nacional na categoria mais pesada. Final desse mesmo ano de 2018, competi internacionalmente em Itália, onde ganhei duas medalhas de ouro, venci a categoria junior e a categoria mais pesada de culturismo. Depois entrei em off season quase 3 anos para ganhar mais massa muscular e vir a melhorar o meu fisico para competir em competições de maior nível. Em 2021 voltei aos palcos com 23 anos, já numa versão bem melhorada. Competi no campeonato Nacional da Npc, maior evento nacional de Portugal e consagrei me Campeão Nacional. Venci a minha categoria e venci o overall – que é os melhores atletas de cada categoria uns contra os outros – e consagrei me Campeão Nacional Absoluto. Competi na semana a seguir também no Casino, Pro Qualifier 2021 (prova internacional), na luta do cartão profissional, que é a maior ambição de todos os atletas que se querem tornar profissionais e aceder ao maiores eventos de culturismo do mundo contra os melhores atletas do mundo.  Fiquei em segundo lugar, não conseguindo assim ganhar o cartão. Ano de 2022 volto aos palcos ao fim de quase um ano em fase de volume para vir mais completo fisicamente, para defender o meu titulo de campeão nacional absoluto. Defendi o meu título com sucesso, tornando-me assim bicampeão nacional. Competi no mesmo dia também novamente pelo cartão profissional (Pro Qualifier 2022) e voltei a bater na trave, com um 2º lugar.

Bernardo Lourenço – Campeonato Nacional da NPC, 2022

Sabemos que vai entrar numa nova competição. Como está a ser o processo de preparação?

Vou competir novamente para tentar conquistar o tão desejado Pro Card para me tornar um atleta profissional e representar Portugal no mais alto nível de competições de culturismo. No dia 2 de julho, Pro Qualifier em Espanha. A preparação resume em fazer o mesmo todos os dias. Máximo de rendimento possível no treino, alimentação controlada grama a grama, controlar o percentual de gordura pois o objetivo é vir o mais seco possível e o maior possível, combinar esses dois fatores. Evitar qualquer tipo de distrações pois a cabeça nestes momentos de extremo rigor gosta de fazer jogos mentais, queremos comer coisas que não podemos, desistir de tudo por momentos e é nesses momentos específicos que temos de desligar a cabeça e fazer o que tem que ser feito. O stress aumenta o cortisol, o que pode levar o corpo a um esgotamento fisico e mental, ganho de gordura. Nestes momentos isso não pode acontecer se o objetivo é vir o melhor possível.

E quais as expectativas? 

Espero ter muita concorrência em Espanha mas acredito que vou vencer, trabalho para isso mesmo e o meu psicológico tem de pensar mesmo assim. Não há lugar para mais nada.

Consagrou-se bicampeão nacional recentemente, quais foram as emoções?

Muito feliz! Quando se vence algo pela primeira vez, é extremamente gratificante. Mas vencer pela segunda vez, assegura-nos que estamos a fazer o melhor possível e que a primeira vitória não foi apenas mera coincidência. Ser o melhor duas vezes consecutivamente num nível de grandes atletas, é um orgulho e dá-me mais motivação para trabalhar cada vez mais.

Quais as ambições futuras? 

Ganhar o cartão profissional (Pro Card). A seguir a isso, ganhar um evento profissional que dê a vaga para o maior evento do planeta de culturismo que é o Mr.Olympia. E por último, vencer o Mr.Olympia.

Como descreve o estado da modalidade a nível regional e nacional? 

Tem vindo a melhor todos os anos. Cada vez mais atletas, cada vez maior número de espectadores, cada vez mais reconhecida pela parte do público e por quem acompanha isto do lado de fora. Mesmo assim, estamos a anos luz de outros países no que toca em apoios. Eu falo por mim, sou Bi Campeão Nacional e não tenho sequer um apoio, um patrocínio. É lamentável. Temos países como a América, Brasil e por aí, com contratos milionários, muitos apoios, seja na alimentação, suplementação, roupa, salários. Aqui temos zero porque a única coisa que este país aposta e vê é futebol. 

Como tem sido o apoio das pessoas? 

Cada vez tenho tido mais apoio das pessoas, cada vez mais reconhecem o trabalho, a disciplina e o sacrifício diário que está por trás e que é requerido para chegar a este patamar. Deixa-me extremamente feliz ver e receber mensagens de conhecidos e desconhecidos a dizer que sou um exemplo e uma motivação para eles, para serem melhores todos os dias. Tenho as pessoas certas à minha volta, os meus familiares, a minha namorada, o meu parceiro de treino e alguns amigos, poucos mas bons.. e no final do dia é isso que realmente importa. Sabe bem vencer mas vencer sozinho e não ter ninguém lá para te apoiar e celebrar contigo, não valeria a pena. E isso, não é o meu caso!

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