ARTIGO DE OPINIÃO: Um texto nunca vem só: de Meendinho a Reininho

24/11/2021 18:30

Quando entrei no livro à página marcada, os dois poemas já lá estavam. Não deram pela minha presença e continuaram a conversar, versos nos versos, como se eu não lá estivesse. Há textos assim, não mudam de assunto nem baixam a voz perante estranhos. Já outros, talvez por timidez, altivez ou polissemia, escondem-se nas entrelinhas e falam baixinho, às vezes tão baixinho que não percebemos muito bem o que estão ou querem dizer. Percebi nos dois textos a inconfundível pronúncia do norte e notei que havia entre ambos uma relação de grande cumplicidade, apesar da visível diferença de idades. Já se sabe que as relações entre textos são como o amor, não escolhem idade. É por isso que acontece frequentemente textos mais novos darem-se muito bem com textos antigos, nos quais se inspiram e com os quais não resistem a dialogar à luz envolvente do intertexto. Aquilo que o poeta escreve nada pode separar.   

Conheciam-se ao ponto de um repetir as palavras do outro e as vozes dos dois poemas, que eram melodiosas e cadenciadas como as ondas do mar, cantavam o amor esperançoso que cerca e a espera desesperançada que não alcança e o barqueiro que não chegou. Chorou primeiro a cantiga de amigo Sedia-m’eu na ermida de Sam Simion, ainda trazia lágrimas do século XIII consigo. Depois, tal como «corre o rio para o mar», chorou a canção interpretada por Rui Reininho e Isabel Silvestre, afinal a letra devia a Meendinho muito do que era e não havia como negar que a cantiga trovadoresca fazia parte de si. Na verdade, há palavras que o vento não leva e «o mar maior» não engole, antes procuram «caminhos novos para andar».  

Abraçaram-se os dois poemas. Um abraço longo e longínquo. Despediram-se até à próxima leitura. Quanto às palavras que ambos pronunciaram nesse momento, ainda as tenho no ouvido: «Nom hei [eu i] barqueiro nem sei remar», «Não tenho barqueiro nem hei de remar».

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