ARTIGO DE OPINIÃO: Um fado para Amália!

12/07/2021 19:30

Amália da Piedade Rebordão Rodrigues, mais tarde, só Rodrigues, porque Rebordão era pouco artístico, nasceu num bairro lisboeta, numa “casa portuguesa com certeza”, num dia incerto, no tempo das cerejas. 

Foi registada, com atraso, no dia vinte e três de julho de 1920, na Lisboa das sardinhas fumegantes e dos arraiais populares, brindados com vinho tinto. A Lisboa de Alcântara, de Alfama, da Mouraria e da Madragoa, com vasos de manjerico às janelas. A Lisboa das varinas e dos “pregões matinais que já não voltam mais”. A Lisboa das andorinhas nos beirais, das gaivotas voando no céu azul, dos veleiros à beira Tejo. A Lisboa “das seculares procissões” e do soluçar das guitarras pelas vielas. 

Nasceu no seio de uma família pobre que, à semelhança de muitas que viviam na interioridade de um país litoral, vieram do Fundão, Castelo Branco, para Lisboa à procura de melhor pão. Uma família que trazia na pele sofrida e na voz, ora triste, ora alegre, os cantares da Beira Baixa “Senhora do Almortão”. Cantava. Cantava muito as canções populares, as canções de roda e as marchinhas com a mãe e as irmãs. 

Venho falar-vos da sua voz inimitável, do seu timbre único, do seu olhar perdido, sob as pálpebras semicerradas, do seu ar trágico, de cabeça caída para trás, dos seus vestidos e xailes, primeiro coloridos, depois negros, negros, dos seus braços abertos, das suas mãos feitas castanholas no ar ou postas em oração, da sua solidão entre as gentes. 

Trazia com ela um destino.  Feito de mares de sargaços, de medos e fúrias sangrentas. Feito de amor e salvação. De lágrimas e de silêncio, de dor e de solidão, de partidas e chegadas, de risos e de gritos, de sombras e de amarguras, de alegrias fáceis e de silêncios de morte. Trazia com ela o sentimento da finitude e da imperfeição. Da graça e da desgraça. “Como quem anda à procura de um grão de areia perdido”. 

Amália foi uma mulher que subiu a pulso no palco vida. Nunca ignorou as raízes, mesmo quando a sua voz peregrinou no palco do mundo inteiro que, antes de nós, lhe rendeu condecorações e homenagens singulares: Espanha, França, Estados Unidos, Itália, Brasil, Japão, América Latina, África, todos os continentes e, “se mais mundo houvera lá chegara”.  Tal como Camões, o seu poeta mais amado.

Amália foi criticada por tudo, por ser tradicionalista, folclórica, cantar à espanhola, com ecos de flamenco, por ser popular e querer ser erudita, conciliando o fado castiço, cantado nas tabernas, com um novo fado, cujas letras eram poemas de grandes escritores desconhecidos ou ignorados por muitos. Antigos e contemporâneos. Muitos deles musicados por Frederico Valério e por Alain Oulman. 

A sua VOZ ficou marcada pelo arrastar das vogais que prolongava as sílabas. “As sílabas de Amália”. A sua voz vinha de longe, com os seus sons guturais, árabes e ciganos, celtas e judeus, numa miscelânea de uma sabedoria ancestral.

Na voz de Amália mora a nossa memória. Conciliou, como ninguém, o fado tradicional e as modinhas populares com a ousadia ou, para alguns, a “heresia” de cantar os grandes poetas de todos os tempos da nossa velha nação, desde a Idade Média até os nossos dias: das cantigas de amigo, de Pero Viviães de Mendinho e de João Ruiz de Castel-Branco a D. Dinis, o rei trovador; do nosso Cancioneiro Geral a Bernardim Ribeiro; de Camões a Guerra Junqueiro, de José Régio a Sebastião da Gama, de Pedro Homem de Mello a David Mourão-Ferreira; de José Carlos Ary dos Santos a Natália Correia de Oliveira; de Alexandre O’ Neill a José Afonso e Manuel Alegre. 

Ela é a voz de uma língua antiga, a nossa. Ela é um dos nossos grandes patrimónios imateriais.

Estamos em julho. Silêncio que se vai cantar o fado.

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