ARTIGO DE OPINIÃO: Trabalhamos para viver ou vivemos para trabalhar?

14/08/2021 19:30

É de conhecimento geral que a maioria de nós atualmente vive numa sociedade corrida e virada para a produtividade 24/7 os 365 dias do ano. Importam os números e valores, importa chegar aos objetivos delineados, importa não parar nem desistir. Damos connosco a colocar o nosso bem-estar em terceiro e quarto lugares e a ter de abdicar de momentos de lazer na nossa vida diária em prol do trabalho fora de horas.

Por fim, chega o Verão, sinónimo para muitos das tão desejadas férias, período de prazer e descanso, sonhados ao longo do ano. Parar para o devido descanso é não só um direito merecido mas também uma condição essencial para a nossa saúde mental, que não podemos descurar. Pessoas que não param, correm o grande risco de atingir um desgaste físico e psicológico de tal ordem elevado, que acabam por desenvolver quadros de burnout, caracterizados por sintomas de depressão, ansiedade, alterações graves do sono, dificuldades de atenção, para além da diminuição significativa da sua qualidade de vida. 

Quando paramos e desligamos o piloto automático das obrigações diárias, entramos mais facilmente em contacto com o nosso self interior e assim conseguimos fazer balanços sobre a nossa vida, redefinir prioridades e perceber melhor objetivos e como os atingir. É neste espaço e tempo que se abre para nós, que entramos em contacto com novas ideias e diferentes perspetivas que nos podem trazer a tão desejada realização pessoal e satisfação. O cérebro mais descansado é bem mais criativo, mais produtivo e promotor de um maior bem estar. 

Assim, podemos colocar a questão: porque é que os momentos de lazer, parte tão importante da nossa vida, são tão significativamente menores do que os momentos de trabalho? Nesta linha, a semana de quatro dias de trabalho está novamente a ser equacionada em vários países que começam a tomar posições mais demarcadas em relação à redução dos dias laborais. A ideia não é nova, mas a pandemia da Covid-19 veio dar-lhe um empurrão. A Islândia já testou (com “sucesso esmagador”) e, em Espanha, Japão e Nova Zelândia esta mudança está a ganhar força junto de empresas e governos. Maior flexibilidade e equilíbrio entre vida pessoal e profissional são as grandes vantagens apontadas por especialistas. Na experiência, realizada entre 2015 e 2019 pelo laboratório de ideias Autonomy, no Reino Unido, e a Association for Sustainability and Democracy, a produtividade foi mantida e até mesmo melhorada, segundo as conclusões do estudo. Para além disso, o bem-estar dos trabalhadores que participaram também revelou melhorias em vários indicadores, nomeadamente com a redução do risco de burnout, uma preocupação agora acrescida com o recente aumento da consciencialização da importância da saúde mental.

Posto isto, o sofrimento psicológico é um dos grandes fatores incapacitantes da população e Portugal tem estado nos lugares cimeiros das tabelas europeias de prevalência de perturbações de ansiedade e depressão. É fundamental empoderar a população para que lute por um estilo de vida saudável que previna este tipo de problemas, fazendo pausas do trabalho e usufruindo de momentos de lazer recorrentes.

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