ARTIGO DE OPINIÃO: Quem sai aos seus

20/04/2022 19:30

Shrek é o exemplo perfeito de uma narrativa fílmica riquíssima em ocorrências intertextuais. Dialoga com outros filmes e diversos textos, com personagens e personalidades, entrelaça ficção e realidade, e dirige-se sobretudo aos adultos quando lhes pede o reconhecimento dessas referências, como acontece, por exemplo, em Shrek 2, quando o vestido de Fiona sobe, tal como o vestido de Marilyn Monroe em The seven year itch (1955). 

O reconhecimento do intertexto e a sua tradução são questões de grande importância face à compreensão integral do significado desta narrativa audiovisual. Assim, podemos considerar que o público infantil constitui um leitor semântico (que percebe a trama e o desfecho da história), enquanto ao público adulto, como leitor de segundo nível, cabe aceder ao intertexto como processo de construção de sentido; ao conseguir fazê-lo, detetando e relacionando referências, ideias e situações, diverte-se e aplica ao filme aquilo que o próprio Shrek diz sobre os ogres, quando os compara a cebolas: também tem camadas.

Quanto a mim, é impossível pensar em ogres sem pensar logo em La belle au bois dormant, texto de Perrault e que todos conhecemos como o conto da Bela Adormecida. O que muitos não saberão é que as versões mais conhecidas, em que o final da história coincide com o casamento dos enamorados, não contam tudo: não contam que o príncipe que acordou a menina era filho de uma ogra; não contam que essa rainha gostava tanto da nora e dos netos que os quis comer; não contam que, gorado o seu intento e aproveitando a ausência do filho, entretanto rei, mandou encher um tanque com cobras e afins com o objetivo de para lá atirar a princesa e os filhos; e não contam que só o regresso inesperado do filho impediu que a (s)ogra concretizasse o seu plano, atirando-se ela mesma para o tanque.

Tudo está bem quando acaba bem, dirão. Certo. É verdade que, depois de salvar a princesa do seu longo sono de cem anos, o príncipe impediu que morresse às mãos – ou à boca, melhor dizendo – da sua adorável mãe. O problema é a última frase do conto, uma frase mesmo à Perrault, que me fez duvidar de que a história tem mesmo um final feliz – pelo menos para a princesa e para os filhos: «Le Roi ne laissa pas d’en être fâché: elle était sa mère; mais il s’en consola bientôt avec sa belle femme et ses enfants.»

Ó diacho! Consolou-se com a mulher e os filhos? Por outras palavras, filho de peixe, perdão, filho de ogra, ogrinho é. Será?

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.