ARTIGO DE OPINIÃO: Quando as titis rosnam

21/07/2021 19:30

Quando tudo parecia estar resolvido e nada restar dos ameaçadores zombies a não a ser a memória da sua icónica dança – pela extraordinária coreografia que é, realmente, do outro mundo – eis que Michael Jackson, colocando o braço protetor por cima dos ombros da namorada assustada, vira o rosto para a câmara e deixa que uns inesperados olhos de lobisomem perturbem a sua aparentemente doce e inofensiva imagem, inquietando o público ao levantar a dúvida quanto à sua verdadeira índole ou natureza: lobo ou homem?

Em Os Maias, a imagem inicial de D. Ana Silveira, senhora que «era em pontos de doutrina e de etiqueta uma grande autoridade em Resende», parece inviabilizar desde logo um temperamento irascível ou azedo e atitudes mais agressivas; no entanto, nem a doutrina nem a etiqueta conseguem controlar a sua verdadeira natureza quando, desagradada com o comportamento impetuoso de Carlos, lhe rosna «muito seca» que tenha maneiras. Sob a capa da educação e da religião – cuja falta tanto a escandaliza, como se percebe quando confessa ter sonhado três noites a fio com o facto de Carlos não fazer ideia do que é o Ato de Contrição – esconde-se uma mulher cuja agressividade lhe retira bondade e humanidade, afinal aqueles valores que deveriam ser os esteios de referência das suas atitudes, e a aproxima da incivilidade e da animalidade. 

Não é só a D. Ana Silveira, a titi do Eusebiozinho, que reza e que rosna. Em A Relíquia, também a religiosidade da titi de Teodorico Raposo, D. Patrocínio das Neves, não a impede de rosnar – e também «secamente» – como forma de avisar o sobrinho, a quem obriga a dizer o Credo e a desfiar os Mandamentos, de que não admitirá que se porte mal. No caso da D. Patrocínio das Neves, figura hedionda de «carão chupado e esverdinhado», o uso repetido de «rosnar» torna-se ainda mais expressivo quando se vê acompanhado por outros verbos como «farejar» ou «uivar», reforçando os traços animais da personagem.

O caráter maternal, terno e protetor que a carinhosa forma de tratamento – o diminutivo «titi» – parecia indiciar é assim claramente infirmado, uma vez que os comportamentos destas personagens dão voz à sua verdadeira natureza, que desvendam – a de lobos em pele de mulher.

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