ARTIGO DE OPINIÃO: Profetas (e Poetas) e Profecias

28/07/2021 19:30

O mundo necessita de novos Profetas, tanto quanto corre atrás de certos vendedores da desgraça. A Literatura precisa também de novos profetas da Palavra, a exemplo do nosso conhecido Bandarra, “Trovador” de um futuro improvável. Em outros tempos Profetas como o Bandarra eram perseguidos e excomungados, queimados até em fogueiras transformadas em públicos espetáculos. Porque tudo e qualquer coisa poderia ser obra do Demónio. Porque procurar determinar as circunstâncias de um futuro próximo não era digno da confiança dos poderosos. O futuro não inquieta tanto as almas pacíficas e ilustradas, antes muito mais o coração empedernido dos poderosos…

Há um mês atrás passei um dia belo e reconfortante por terras do sapateiro e “Profeta” Bandarra, tendo por guia o grande amigo Santos Costa, excelente comunicador, investigador, ilustrador e tantas outras qualidades. E fiquei muito próximo do pensamento do sapateiro. Bandarra nasceu em 1500, exatamente num tempo de mudanças inquietantes (nas ciências, nas artes, na religião)…  e as suas trovas, eivadas de premonições inquietantes, profecias de acontecimentos futuros, tornaram-se como se diz hoje em dia “virais” entre as comunidades instruídas, bem como entre os poderosos. As suas profecias inseriam-se numa época negra da História nacional, anunciando terríveis circunstâncias para o futuro do império (lançando as bases de um mítico Quinto Império, em redor do alvor do Sebastianismo). Depois tornaram-se Poesia, trovas eivadas de alegorias e simbologia bíblica, constituindo-se em verdadeira obra literária.

Tantas vezes os Poetas são Profetas, revoltados contra as faces insípidas da vida, anunciadores de mudanças da natureza das coisas e do pensamento. Por isso tanto incomodam aos poderosos, hábeis em procurar diminuir a influência do pensamento (literário ou científico) sobre as populações governadas.

Significativas foram as profecias do antigo povo de Israel, às quais Bandarra alude frequentemente. E através delas procura confirmar o seu pensamento:

“Muitos podem responder,
E dizer:
Com que prova o sapateiro
Fazer isto verdadeiro,
Ou como isto poder ser?
Logo quero responder
Sem me deter:
Se lerdes as Profecias
De Daniel e Jeremias
Por Esdras o podeis ver.”

Precisamos de novos Profetas da Palavra, anunciadores de uma Poesia de retorno ao humanismo cívico e ao naturalismo responsável, Trovadores e Cantores que toquem as almas sãs e livres, que recuperem para os mais jovens e menos jovens a beleza e o alcance primordial dos primeiros versos, ultrapassando as sombras negras da Pandemia e da Desgraça… porque no princípio era a Palavra, inspiradora do Mundo e da Vida! Precisamos de novos Bandarras em cada cidade, em cada jornal, em cada escola, pois como escrevia o Bandarra quinhentista, “Antes destas coisas serem, Desta era que dizemos, Muitas grandes coisas veremos. Quais não viram os que viveram, Nem vimos, nem ouviremos.”

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