ARTIGO DE OPINIÃO: Pela nossa saúde!

18/07/2021 19:30

Quase meio século, 47 anos mais precisamente, após a instauração do regime democrático, Portugal continua triste, engelhado, pobre e cada vez mais velho.

Após injecções sucessivas de milhões e milhões de escudos e de euros, com vista à convergência europeia, não se vêem melhoras nem forma de sairmos da cauda da UE. Cá para mim, tem andado muita gente a ir ao pote. Não sou de intrigas, mas tanta incompetência na definição de uma estratégia nacional de desenvolvimento e na sua execução, cheira-me a borrasca.

O que gostamos é de pagode e de farra, de permeio, sermão e missa cantada. Grandes cargos políticos além-fronteiras, realização de grandes prémios e finais europeias são o nosso orgulho. Para apanhar o rebotalho, não viramos a cara a festanças.

Falemos de números recentes que escandalizam.

Mais de 1 milhão de portugueses não tem médico de família, regressando, assim, aos valores de 2016. Talvez seja tempo de o governo pensar neste mistério e resolver a difícil equação. Cada vez mais faculdades de medicina, cada vez mais médicos e cada vez mais doentes sem médicos.

No espaço de 1 ano, em tempos de pandemia, houve menos 13,4 milhões de consultas e menos 4,5 milhões de cirurgias, atendimentos em urgências e internamentos. Os números pesam. Quantos cancros ficaram por diagnosticar? E AVCs? E enfartes? Mas, não é tudo.

As ressonâncias magnéticas são, hoje, um importante meio de diagnóstico. Decorrendo em ambiente hospitalar, não são comparticipadas na rede privada, apesar de cada vez mais médicos as prescreverem como meio de chegarem às maleitas e aos tratamentos. E, assim sendo, resta ao contribuinte ir às suas economias e pagar do seu bolso, ou esperar que chegue a sua vez, no público, sabendo que a lista de espera é grande, de um ano e meio.

A maioria, como é óbvio, ou paga por si, prescindindo de bens essenciais, alimentação, luz, gás ou desiste. Se a doença for grave, morre, sem o diagnóstico atempado. O que explica estas duas obscenidades são critérios economicistas, atirando às urtigas os velhos aforismos de que primeiro estão as pessoas ou as pessoas não são números. É o desinvestimento brutal na saúde, nos profissionais, nos equipamentos, nas infra-estruturas, que as recentes admissões e aquisições não disfarçam, e que levou ao défice maquilhado e às contas públicas virtualmente equilibradas. Uma mentira em que embarcámos todos, fartos de tristezas e amarguras, ávidos de boas notícias.

Para além de teso e engelhado, Portugal está anestesiado. Desfalecido e descrente, não reage, parece vegetar. A morte, essa, está certa.

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