ARTIGO DE OPINIÃO: Paula Rego, entre a realidade e a fantasia

16/06/2022 19:30

É impossível hoje não falar de Paula Rego. Lamentar a sua morte, claro, mas também celebrar a sua vida. Compreender que o que nos deixou é muito mais do que telas e painéis pintados. São realidades e conceitos que saem da sua imaginação e da sua vontade, mas que estão relacionados com a vida e com as histórias de todos nós.

Nasceu em Lisboa, a 26 de janeiro de 1935. Desde cedo revelou apetência para as artes, tendo o pai incentivado a sua ida para Londres, saindo de um Portugal Salazarista pouco conivente com a liberdade de expressão.

Durante os anos 50 desenvolveu os seus estudos na Slade School of Fine Arts, tendo em 1959 casado com Victor Willing, também ele pintor.

Na década de 60, a sua vida é feita entre Londres e a Ericeira, onde a família possuía uma casa. É neste período que se tornou bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian.

No início dos anos 70, vê-se obrigada a vender a casa de família, mudando-se definitivamente para Londres.

Em 1975 torna-se novamente bolseira, desenvolvendo um projeto sobre contos infantis, onde predominam as colagens.

Ao longo dos anos 80, depois de uma experiência na área da docência na Slade School of Fine Arts, regressa à pintura “mais livre e direta”, inspirando-se no mundo infantil e nas figuras imaginárias e zoomórficas.

Em 1987 Paula Rego assina contrato com a galeria Marlborough Fine Art, contrato esse que a impulsiona para uma carreira internacional. É nesta altura que realiza algumas das suas obras mais conhecidas «O Cadete e a Irmã», «A Partida», «A Família», entre outras obras.

Ao longo da sua vida são-lhe atribuídos vários prémios e distinções como o Prémio Turner em 1989, o Grande Prémio Amadeo de Souza-Cardoso em 2013 e a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada em 2004. Em 2010, pela sua contribuição para as artes, recebe da Rainha Isabel II a Ordem do Império Britânico com o grau de Oficial. Em 2019, recebeu a Medalha de Mérito Cultural do Governo de Portugal. Em 2009 é inaugurada a “Casa das Histórias” em Cascais. Neste espaço é apresentada uma coleção de pinturas, desenhos e gravuras, que reflete o seu percurso artístico e criativo.

O seu trabalho está representado nas mais variadas coleções de arte por esse mundo fora e a sua obra é de facto notável no que respeita às características técnicas e formais. A maioria das suas pinturas, figurativas, têm um carácter marcadamente simbólico e tornam-se uma via para manifestar as suas opiniões e posições a nível social, religioso e político. Em toda a sua obra podemos observar um interesse pela representação da mulher, pela sua condição. De tal forma que em algumas obras podemos perceber a auto-representação. Não é por acaso que em 1997 pintou a obra «Aborto», um tema que lhe é muito próximo.

Realmente devemos celebrar o legado que nos deixou. Não só a obra física, mas a verdade e o conceito que estão na sua base. As suas obras deambulam entre a realidade, dura e rude, e a imaginação. Nas suas pinturas viajamos, de forma fantasiosa e, por vezes, inquietante, até aos seus, nossos tormentos mais íntimos.

“O Baile”, 1988

Tinta acrílica sobre papel sobre tela

212,6cm x 274cm

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