ARTIGO DE OPINIÃO: Palavras para Sophia

05/05/2021 21:00

Venho falar-vos de Sophia de Mello Breyner Andresen. Isto a propósito de, no dia vinte e cinco de abril, ter ouvido e lido, repetidamente, os seus versos:

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

E falo de Sophia como se ela fosse uma velha amiga. Acompanho-a há anos. Muitos. Desde que aprendi a ler e a ser. Tantos quantos a descoberta da sua palavra primordial, do seu saber ancestral, da sua memória desigual. 

Na sua voz, distinguem-se outras vozes no assobio do vento nas bétulas das florestas nórdicas. Na sua voz, ecoam vozes gregas, intemporais. Os seus dedos deslizam na folha branca dos poemas e sulcam um mar à espera de se dar.  São dela os cabelos das sereias, os seios de Afrodite, os lábios das musas da inspiração poética. Das suas mãos, conchas finas, evola-se a brancura das estátuas nuas. O seu olhar reflete a luz das paredes das casas das praias do sul. Os seus poemas são a voz da maré alta e o eco da maré vaza.

Sophia é um Poeta maior da nossa contemporaneidade. Uso o masculino propositadamente. Era assim que ela queria ser chamada, atribuindo ao Poeta um dom que não conhece género. Um nome predestinado, como dizia Eduardo Lourenço.

Os seus cadernos de menina estavam anotados com poemas. No jardim do Campo Alegre, no Porto, dançava entre as roseiras bravas e as camélias japónicas. Diz o filho, Miguel Sousa Tavares: “Nunca se sabia quando minha mãe deixaria de recitar poesia ou de dançar como uma bailarina pela noite fora”. 

Sophia não está no Panteão Nacional, para onde a transportaram, por ordem de decreto. Paira nos seus livros. Anda por aí com os seus pés alados. Continua a sentar-se debaixo das tílias odoríferas, onde a velha criada lhe ensinou a “Nau Catrineta”. Os seus passos estelares continuam a desenhar-se nas areias, à beira água, à beira ser, à beira vida. Sophia é ela própria um elemento marinho.  

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua, 
Onde me uni ao mar, ao vento, à lua.

Sophia de Mello Breyner Andresen foi deputada à Assembleia Constituinte, em 1975, logo após a revolução de abril dos cravos rubros. Ficou para sempre a sua frase culta e o seu pensamento livre.  Ouçamo-la: “A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar – para que o homem possa construir e construir-se em liberdade e em justiça.”

A cultura não é de direita nem de esquerda. Ela é o centro de todas as direções.

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