ARTIGO DE OPINIÃO: Os Maias

02/03/2022 18:30

Fui buscar o livro à estante do meu quarto, onde guardo alguns dos livros da minha vida. Olhei para as encadernações vermelhas com letras douradas e lembrei-me daqueles meses de verão, quando as férias eram mesmo muito grandes, em que descobrira todo o Eça, depois de o ter conhecido através de Os Maias, livro de leitura obrigatória no liceu, porque clássico, logo, imorredoiro. Sei-o agora, muito bem!

O meu livro já passou por muitas outras mãos e muitas vezes pelas minhas, em muitas alturas da minha vida, quer como aluna de Letras, quer como professora de Literatura. Já passou pelas mãos dos meus filhos, de familiares, de colegas. Deixou de ser apenas um exemplar das Edições “Livros do Brasil”, para se tornar, gradualmente, um livro recheado de anotações e de caligrafias diferentes. O Eça iria gostar de saber disto. Pois os escritores gostam de ser lidos e não resumidos por quem nunca os leu, de verdade. Vou anotar isto para não me esquecer de o dizer aos meus alunos do décimo primeiro ano, nas nossas aulas de Português.

Não sei quantas vezes li este romance, mas sei que foram muitas e que, em cada uma delas, encontrei novas personagens. Pasme-se! De cada vez, experimentei novas perspetivas de leitura e é uma delícia recapitular a grande analepse inicial, só são quase quatro capítulos. Reencontrar o velho Afonso de barbas brancas, o belo Carlos, de barba rente ao rosto, de olhos negros e húmidos como os do pai, indício trágico da genética que se confirmará na cor dos olhos de Maria Eduarda e se revelará, de igual modo, na “carnação ebúrnea” de estátua grega, que herdou da mãe instável e romântica, de nome Maria. Não importa o apelido de tão negro que era.

E, como observadora atenta, visito o Ramalhete, todo renovado para receber o jovem médico. Não, agora não vos vou falar das minhas impressões dos quartos, das salas, dos tapetes, dos móveis e bibelots, dos quadros que cobrem as paredes, nem dos cortinados das janelas verdes. Deixo para mais tarde as minhas impressões sobre o pequeno jardim e a estatueta de Citereia.

Percorro as ruas de Lisboa. Paro no Rossio e encontro, a custo, porque já tiraram o reclame junto ao da engomadeira para fora, o consultório do Dr. Carlos Eduardo da Maia, num prédio de fachada enxovalhada, frente a uma praça pouco asseada, com bancos pintalgados de verde, ora ocupados, ora desocupados, por lisboetas ociosos e feios, conforme a sombra escassa das árvores com copas maltratadas. Entre os prédios, saboreio, com alguma demora, o azul do céu e uma luz solar única, inconfundíveis. Estou em Lisboa.  E que saudades, Deus meu! Lá ao fundo, descortino o Tejo aquele que corre pela aldeia do Pessoa, metaforicamente falando, é claro! E ouço uns versos nostálgicos do Cesário. Coitado.

Subo umas escadas de madeira, apoiando-me bem no corrimão carunchoso, depois de ter passado por um pátio de mármore axadrezado e escorregadio, onde uma hortaliceira vendia abóboras e nabos. Espera-me, à porta de um primeiro andar, um velho criado de libré, com luvas brancas e tudo. Ouço uns acordes sorridentes de piano ao fundo e as vozes animadas do Marquês e do Cruges, que vieram antes de mim e já se encontravam instalados nas poltronas com braços largos, todas forradas de veludo verde com ramagens prateadas. Chiquérrimas!

Esperava encontrar o Alencar desgrenhado a fumar um “pensativo cigarro” ou o Ega a divagar sobre uma nova arte, o Realismo do Eça, mas não. O Dr. Carlos, ocupando o centro das atenções, lá estava todo janota, casaco acetinado todo abotoado, um dandy, no último modelo feito em Paris, a falar dos seus projetos: consultar crianças, acudir-lhes num gesto fraterno, coitadinhas; dedicar-se à investigação escrupulosa e cuidada num laboratório arranjado por Vilaça júnior, ali ao lado às Necessidades. Os seus olhos negros rebrilhavam, ainda mais, ao falar do projeto de edição de uma revista científica. Original, pois, claro, que em Portugal tudo se faz por imitação. Até mulheres se importam, diria o matreiro do Mefistófeles.  

Enquanto falava destes seus projetos, olhava, de lado, umas atrizes seminuas na capa de uma revisa de moda francesa que o Eusébio, já viúvo, segurava no colo. O Figaro e o Times descansavam, lado a lado, numa banqueta cujo tecido adamascado combinava com os cortinados grossos que recobriam as janelas, num ambiente de botequim fim de século. O Ega chegou mais tarde, de monóculo no olho e examinou o gabinete, apreciando, particularmente, o divã, “móvel de amor”, enquanto cofiava o bigode. Carlos elogiou-lhe os sapatos de verniz acentuadamente bicudos. Já nada tinha a ver com o Ega que conhecera em Coimbra, gritando pelas ruas com a batina cheia de rasgões.

 Os Maias.  Sim a história de uma família que podia ser a dos Sousas ou de um outro qualquer apelido.  Gosto de os ler a partir do segredo do subtítulo “Episódios da vida romântica” e ir, de lupa em riste, à descoberta de um país, de um mundo, de um século XIX, ainda tão atual na sua índole, porque um retrato da natureza humana com os seus aleijões e deformidades.

Lê-los em voz alta continua a ser uma delícia. Aqueles diminutivos em inho, aqueles adjetivos duplos e triplos, aquele verbo “gouvarinhar”, aqueles advérbios de modo em mente, e as hipálages, e já agora, as sinestesias. Do melhor!

E há quem diga que nunca leu Os Maias. Nem sabem quanto ficaram a perder!

Um dia destes, talvez conte o resto para os mais incrédulos. Prometo que não levarei setecentas páginas a fazê-lo.

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