ARTIGO DE OPINIÃO: O Tango de Satanás (ou o regresso de novos lobos maus)

25/08/2021 19:30

LASZLO KRASZNAHORKAI era para mim um escritor praticamente desconhecido (imagino que para muitos leitores também), até há bem pouco tempo quando lhe “tomei de assalto” este “ O Tango de Satanás”. É considerado atualmente um dos maiores escritores contemporâneos. “Mestre Húngaro do Apocalipse”, segundo Susan Sontag, autor intransigente e intenso no estilo, na forma e conteúdo, influenciado pelo inconfundível Franz Kafka e por Samuel Beckett, analisa as realidades até à loucura num estilo arrebatador, recorrendo a um vocabulário rico e inesgotável, refletindo sobre a decadência e adormecimento das sociedades atuais industrializadas, ou vítimas da aceleração do quotidiano, e sobre a humanidade eternamente dilacerada entre o binómio da criação existencial e da destruição apocalítica.   

Este romance “O Tango de Satanás” foi a sua obra de estreia, (1985), e logo um murro no nosso adormecimento, provocando uma “entrada de corpo e alma numa pluviosa experiência hipnótica, e sentir que como teia de aranha em recantos escuros, uma fina fuligem existencial se deposita na mente”. Esta obra é uma profunda meditação sobre as crenças em falsos profetas, no rescaldo de utopias falhadas, os passos que damos à beira do abismo, e as histórias que somos capazes de contar para sobreviver e iludir… e assim nos iludimos também, “quando julgamos que nos vamos libertar, e na verdade estamos apenas a mudar as cadeias!”. 

Vivemos tempos de regresso de profetas sem memória, almas sôfregas de poder e fama, prometendo a salvação neste mundo através de uma qualquer visualização ou experimentação (ainda que virtual) de outros mundos distantes ou inacessíveis… e na ânsia e loucura ambiciosa de lá chegarmos antes de outros (ou mais felizes), apenas trocamos o sonho de uma alegre liberdade por um pesadelo escondido ou disfarçado pelo brilho de máquinas e ecrãs polivalentes… 

Página 93… “no meio da noite escura em que ele vivia, as palavras e os ruídos se esbatessem às vezes, por um instante, e assim, surdamente, cegamente, tudo o que o rodeava perdesse o seu peso, inclusive o próprio corpo, os braços, as nádegas, as pernas, … como se a sensibilidade ao toque, ao sabor, aos odores, desaparecesse de repente…”. 

Neste Tango de Satanás apenas dançará quem quiser, a toque de caixa, como criança curiosa levada pelas promessas arrebatadoras de um lobo mau disfarçado de cordeirinho espreitando por entre o colorido intenso de uma floresta encantada… e infelizmente a avozinha já sem memórias de outros apocalipses não poderá ajudar a evitar essa “dança da Morte” com Satanás.

Boas leituras.           

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