ARTIGO DE OPINIÃO: O peso do conhecimento e a leveza da sabedoria

21/09/2022 19:30

É ao deixar de ser professor de História e Literatura na maior universidade egípcia para passar a percorrer as ruas do Cairo como mendigo, que Gohar, protagonista do extraordinário romance Mendigos e Altivos, de Albert Cossery, não só apresenta a sua visão do que é ou deveria ser o ensino, considerando que «Ensinar a vida sem a viver era o crime da mais detestável ignorância», como, ao optar por viver «na mais estrita economia material» e apagar da memória «a noção do mais elementar conforto», defende o desprendimento material como modo de vida, a única forma de, sem o grilhão dos bens materiais, atingir a paz e a liberdade. Gohar distingue, assim, conhecimento de sabedoria: ao conhecimento do professor universitário opõe a sabedoria do mendigo e a vida atravancada de um à vida livre – «no estado primitivo» – do outro. 

Se Gohar encontra na mendicância o caminho para a liberdade, já Jacinto, pela mão de Eça de Queirós, encontra a felicidade no caminho para Tormes, que lhe devolve inteiro esse tal «estado primitivo» despojado dos excessos da civilização. Assim, também Jacinto prescinde do conforto e do luxo dos bens materiais – afinal desnecessários – para encontrar na natureza e na vida do campo a paz de espírito que o tédio existencial lhe recusava: na verdade, «é no máximo de civilização que ele [o homem] experimenta o máximo de tédio», porque, quanto mais se tem, menos se é. Deste modo, também aqui se distingue o conhecimento da sabedoria: de um lado, «a árvore funesta da Ciência»; do outro, «um teto de colmo, uma leira de terra e o grão para nela semear», dado que «a sapiência, portanto, está em recuar até esse honesto mínimo de civilização».  

Nesta medida, parece, pois, que o conhecimento e a civilização são incompatíveis com a felicidade e que, quanto «mais alarga e acumula a obra dessa inteligência», mais o indivíduo se afasta da possibilidade de ser feliz, pagando com dolorosa angústia o preço de possuir aquilo de que não precisa. É também esta a reflexão que encontramos no poema Liberdade, de Fernando Pessoa, que não só desvaloriza o conhecimento – afinal, os «livros são papéis pintados com tinta» – como o responsabiliza por desviar o ser humano do verdadeiro sentido da vida, que se encontra nas mais puras e simples manifestações de beleza e de bondade, como comprova o exemplo de Jesus Cristo, «Que não sabia nada de finanças/Nem consta que tivesse biblioteca». 

A ideia de que a tal «árvore funesta da Ciência» ensombra a fruição de uma vida feliz – e quanto mais frondosa for, maior a sombra será – está também presente em «Ó céu! Ó campo! Ó canção! A ciência/ Pesa tanto e a vida é tão breve!», versos em que Pessoa opõe o peso da ciência à brevidade da vida para nos fazer pensar sobre a bagagem de que realmente precisamos quando a viagem é curta. 

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