ARTIGO DE OPINIÃO: O Natal gastronómico de Lafões

07/12/2021 18:30

Gastronomia de Natal: A gastronomia rica e a gastronomia pobre.

Por muitos séculos, sobretudo nas regiões interiores de Portugal, como Lafões, não existia qualquer celebração natalícia. Estas tradições passaram a ser praticadas, com alguma regularidade, apenas no início do século XIX (apesar de já se encontrarem enraizadas em outras zonas do país).

O Advento, que é o período que antecede o nascimento de Jesus, e que marca primeiro tempo do ano litúrgico, passou a ser vivido com muito rigor, à semelhança do que acontecia na Quaresma. Portanto, era prática comum que neste período se cumprisse um rigoroso jejum, que só era quebrado após o nascimento do Menino, a 25 de dezembro.

Os registos que nos chegaram, sobre as tradições gastronómicas de Lafões, remontam a finais do século XIX, e atentamos ao que sucedia nessa época, tendo em linha de conta que os usos e costumes se foram alterando ao longo dos tempos, sobretudo após meados do século XX.

A época natalícia é farta em ementas de salgados e doces, quer sobre as mesas pobres quer sobre as mesas ricas (mais nestas últimas, evidentemente). As tradições gastronómicas em Lafões revelam uma enorme variedade de sugestões culinárias, com 

pratos da gastronomia regional, doces e salgados, confecionados e consumidos nesta época natalícia (véspera e dia de Natal).

Gastronomicamente, as refeições associadas ao Natal incluem a ceia de Natal (refeição noturna, com foco no jejum do Advento, realizada a 24 de dezembro), a consoada (refeição noturna que representa o fim do período de jejum e ocorre após o nascimento de Jesus, celebrado após as zero horas do dia 25 de dezembro) e ainda o almoço do dia de Natal. 

Entre os pratos salgados surge naturalmente o BACALHAU COZIDO COM COUVES

Este prato era servido na ceia de natal, a 24 de dezembro, antes da Missa do Galo, e marcava os rigores do jejum do Advento.

Tradicionalmente, o cozido era feito numa panela de ferro de três pés, em lume de lenha.

Por vezes, as famílias mais pobres, substituíam o bacalhau por outro tipo de peixe seco, mais barato, comprado às peixeiras ambulantes, que transportavam o peixe em canastras.

O consumo de bacalhau seco era comum, mas começou a vulgarizar-se ainda mais quando o Estado Novo percebeu que se tratava de um produto barato e de fácil conservação; perfeito para o povo faminto que ainda vivia as privações da segunda guerra mundial. 

 A ROUPA VELHA é um prato que aproveita as sobras da ceia de Natal, pelo que a cozedura dos ingredientes deverá ser feita de véspera.

Nas casas mais ricas poderia aparecer o ARROZ DE POLVO À LAFONENSE ou o PERU ASSADO COM LARANJA

O peru era considerado uma ave de “luxo” e foi introduzido na gastronomia portuguesa pelas cortes de Lisboa, por volta do século XVI. Passou a ser servido em banquetes ou na consoada da burguesia e da alta nobreza. Esta tradição foi introduzida em Lafões tardiamente, pelas famílias mais abastadas.

Também o GALO ASSADO NO FORNO era comum nas casas abastadas, criado e guardado para o festim natalício. Os miúdos eram aproveitados para a confeção de uma deliciosa CANJA COM MIÚDOS. 

Tradicionalmente, a canja era um caldo gordo servido aos doentes e às grávidas. Contudo, este caldo passou a ser integrado na gastronomia de Natal, sobretudo nas casas mais abastadas, ao almoço do dia 25.

Mais raro, mas ainda ocorrente, era confecionado o CABRITINHO DE LAFÕES ASSADO EM FORNO DE LENHA. 

A doçaria apresenta também uma vasta mesa de oferta, começando pelos BILHARACOS (ou FILHOSES DE ABÓBORA), as RABANADAS, a ALETRIA DE LAFÕES, o PÃO DE LÓ DE FATIA

Elementos documentais:

Carta Gastronómica da Região de Lafões, pela Confraria dos Gastrónomos da Região de Lafões, edição 2016.

Arquivos RTP, José Hermano Saraiva no Mosteiro de São Cristóvão de Lafões: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/noite-de-consoada/

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