ARTIGO DE OPINIÃO: O embuste

15/09/2022 19:30

Porque acredito que o governo não se vai livrar de anunciar mais outro pacote de ajudas às famílias, aceita-se que, tendo podido fazê-lo, não foi, contudo, mais além do que devia.

Sabendo que os 2.4 MM gastos são bem inferiores ao montante encaixado, o Executivo guardou, prudentemente, o bocado para mais tarde, com a certeza de que esse mais tarde virá, e não tardará.

Os apoios são sempre poucos, mas mesmo assim sempre vão resolvendo alguma coisa, razão por que os cidadãos se vão calando com migalhas, e acalmando-se com trocos.

De qualquer modo, quem nos governa bem que podia ter-se demorado um pouco no controlo dos preços dos bens essenciais e na protecção das famílias com crédito à habitação. A isso, disse nada, porque não tinha nada para dizer, mas é triste e estranho que assim seja.

Preferiu enfatizar a redução do IVA na electricidade, que, discriminando, não é para todos, e dar o “bónus”, isento de tributação em sede de IRS, dos 150 € para cada membro do casal, e dos 50 € por filhos, a todos por igual, uniformizando. Quem terá sido a cabecinha pensadora que por estes tortuosos caminhos adentrou?

E aos pensionistas, ludibriou-os, fazendo-os sorrir com uma antecipação de metade da reforma de 2023, sujeito à penalizadora tributação normal de IRS, para as rabanadas e o bolo-rei, mas não teve coragem de lhes dizer que para 2024 terá para lhes oferecer uma redução do montante devido, por força de uma alteração política da base de incidência, que já estava a preparar, mas pretendeu, dolosamente, ocultar.

E que em 2024, receberão menos 254 euros do que em 2023.

Disfarçadamente, o adiantamento em Outubro altera a fórmula de actualização e corta a base de cálculo. Mas isso foi deliberadamente, intencionalmente, maldosamente, omitido, e desmentido até ao limite que a paciência pôde tolerar e a inteligência pôde aceitar.

Não fosse a liberdade de imprensa, e os economistas não poderiam desmontar o esquema, o embuste que já se estava a cozinhar no Terreiro do Paço.

Estes procedimentos não são sérios, nem são dignos de um governo democrático, eleito com uma confortável maioria absoluta.

Por que carga de água, o governo, em tudo há-de dar com uma mão e tirar com a outra? E por que o há-de esconder? Só uma razão o justifica: a pouca consideração que o povo lhe merece, o que permite tratá-lo como um atrasado mental, incapaz de raciocinar e ajuizar.

De um governo, aguarda-se transparência, verdade, mesmo que doa e não seja agradável.

Ninguém elege pessoas por serem simpáticas, bem-falantes ou de boas famílias, escolhe-se gente recta, supostamente competente, capaz, que diga sempre ao que vem, e que não se acobarde perante as reacções negativas que as suas decisões podem provocar. Proceder de outra forma, não é sério, e já não devia ser dos tempos da internet e da inteligência artificial, a era em que tudo se desmonta e se sabe.

Acossado, Costa já no domingo em Leiria anunciou que o governo iria reflectir. Pudera…

Oxalá uma luz divina ilumine aqueles cérebros e os conduza, politicamente falando, à vida eterna.

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