ARTIGO DE OPINIÃO: Nem só de pão vive o homem

18/08/2021 19:30

Sim, nem só de pão – ou de água – vive o homem, sobretudo se for personagem que Eça convide para almoçar ou jantar (abades e padres fazem-se de convidados, já se sabe). Nesse caso, sabores mais altos se alevantam e o menu é de encher o olho e confortar o estômago. De entre as inúmeras referências gastronómicas que condimentam as narrativas queirosianas, sempre servidas com a saborosa ironia de quem tem mão para a crítica bem temperada, o frango é uma das especialidades da casa: temo-lo assado ou de cabidela em A Ilustre Casa de Ramires e recheado em O Crime do Padre Amaro. Também a galinha ocupa lugar de honra em Eça, seja de fricassé (Os Maias), afogada em arroz branco (O Crime do Padre Amaro e Singularidades de uma rapariga loira) ou como protagonista de um belo caldo de galinha (O Crime do Padre AmaroA Ilustre Casa de Ramires e Civilização). 

Ora o facto de o caldo de galinha ser um dos pratos mais pedidos pelas personagens queirosianas não é indiferente à forma como é apresentado; todos nós sabemos que os olhos também comem e o modo como as palavras se dispõem e combinam para compor a descrição faz crescer água na boca a qualquer um, sobretudo pelas sensações olfativas que estimula. Na verdade, um dos segredos deste prato servido à ceiazinha, de comer e chorar por mais, é o aroma… e Eça sabe deixá-lo intenso por onde escreve, como podemos ver, ou melhor, cheirar: 

  • «Desde as seis que está o caldo a apurar… (…) Da terrina subia o vapor cheiroso do caldo» (O Crime do Padre Amaro); 
  • «(…) o caldinho de galinha, que apurara desde o meio-dia, cheirava que nem feito no Céu!» (A Ilustre Casa de Ramires); 
  • «(…) provou um gole curto de caldo, que era de galinha e rescendia. (…) o seu perfume enternecia.» (Civilização). 

A forma «rescendia» (também usada em O tesouro relativamente ao capão assado com que Rui se deleita) e a ideia de que tal iguaria está à altura – ou nas alturas – das cozinhas celestiais – reconhecidas pelas estrelas do firmamento, que as Michelin querem imitar – despertam os narizes para os prazeres dos sentidos. Assim, a escolha lexical, ao serviço da sinestesia, aromatiza a descrição e, ao fazê-lo, põe mais um talher à mesa queirosiana, permitindo que cada leitor partilhe com as personagens memórias, cheiros e sabores. A deliciosa escrita de Eça, também ela expressivamente apurada e sensorial, faz assim connosco, os leitores, aquilo que o perfumado caldo de galinha faz com as personagens: aguça-nos o apetite.  

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