ARTIGO DE OPINIÃO: Marés

09/09/2021 19:30

O areal extenso estendia-se até ao mar. O rouco som do oceano era cada vez mais nítido. Os nossos passos, cadenciados nos passadiços de madeira, eram lentos e leves. Pisámos a areia húmida e chegámos. Repetimos o ritual: pousar os sacos; colocar as toalhas sobre a areia fina; retirar as blusas e os calções; proteger e hidratar os corpos ávidos de sol.

Deitei-me sobre a tolha. A voz do mar relaxa-me os sentidos. Cerro os olhos e sinto todo o corpo no chão. Ouço o bater das ondas sobre a areia e o vaivém chiado das gaivotas. Entoo uma melopeia em jeito de oração, de entrega ao infinito.

  Olho o horizonte e lembro outros, antes de nós, que atravessaram mares e rotas onde “o antes nada tinha”. Vejo um padrão em cada praia encontrada. Ouço os batuques e as danças de outros povos. Lembro versos épicos de Pessoa e de Camões: “Já no largo Oceano navegavam…”. Invoco os deuses e as forças da natureza benfazeja, trazidas pela espuma branca, salgada e leve. Relaxo. Adivinho o diálogo das aves sobre a areia branca e escaldante. Sonho com um futuro por achar dentro de mim.

Solto um suspiro de alívio e de expectativa. Ao meu lado, junto a um chapéu de sol azul e branco, estão um homem e uma mulher desgastados por um tempo inexorável e insuspeito. Ela, baixa, redondinha, estendida sobre a toalha, olhos semicerrados, colhendo o sol, ora de um lado, ora de outro, antes que as onze horas soem no pequeno apito do relógio digital. Ele, alto, um pouco calvo, sentado numa cadeira de plástico, outrora de lona, lendo o jornal. Entre eles, um silêncio, longo. Juntos, mas tão distantes. 

À minha frente está um casal de jovens bronzeados, deitados sobre as toalhas brancas. Entrelaçam as mãos e beijam-se, suavemente, repetidamente, nos lábios. Vão tomar banho juntos. Entram nas ondas altas que rebentam ruidosamente sobre a areia. 

Sonho que sou a menina do mar daquele livro que li aos meus filhos em crianças. Lembro Sophia. Colho as anémonas, as conchas e os búzios. Respiro a maresia iodada de uma praia do Norte.  Saúdo o sol. Sorvo a paz salgada de uma solidão vadia. Deambulo e perco-me no teu olhar marinheiro. Deixo-me levar.

 Volto com a força das marés, numa velha canção dos Trovante, ao Sul.

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