ARTIGO DE OPINIÃO: Leituras de Verão

27/06/2022 19:30

Que bom, poder voltar às minhas leituras livres, de fim de semana, para já!

Acabei de ler o livro Se os gatos desaparecessem do mundo, de Genki Kawamura, da Editorial Presença, 2021.

Vou confessar-vos que não sabia nada sobre o autor. Fiz uma breve pesquisa apenas depois de ter lido o livro. Trata-se de um escritor, produtor, realizador e guionista japonês, de 43 anos. Este seu livro vendeu mais de 2 milhões de exemplares só no Japão. Já foi traduzido para 14 línguas. É obra!

Sentemo-nos e imaginemos que estamos condenados a morrer dentro de pouco tempo, vítimas de doença incurável. Como receberíamos a notícia transmitida, com muita objetividade, por um médico no hospital? Imaginemos, em seguida, que ao chegarmos a casa, ainda em estado de afasia face ao disgnóstico imprevisto, no chão da nossa sala, à nossa espera, está o diabo em figura de gente. Sim, um diabo vestido com uma camisa havaiana colorida, muito jovem, sem forquilha e sem cornos. Tal e qual. De calções. Simpático. Tem uma proposta para nos fazer. Se em cada dia desistirmos de uma coisa de que gostemos muito, ser-nos-á oferecida a possibilidade de viver mais um dia. Uma proposta irresistível, pensamos nós.

Ora aí é que está o problema! Desistir de quê, se estamos tão apegados às coisas de que gostamos? Do telemóvel? Do relógio? Do gato que é a nossa única companhia? Desistir de quê, afinal?

Viver sem telemóvel não é fácil nos nossos dias. Estamos dependentes dele para tudo ou quase tudo. Como vamos consultar o feed de notícias das nossas redes sociais? Como contactar os nossos parentes, se já não temos telefones fixos, nem agenda com os números telefónicos dispostos por ordem alfabética? Como conversar, em qualquer lugar e a qualquer hora, com os amigos reais ou não? Imaginemos que marcamos um encontro com alguém e que nos enganamos na hora e chegámos ao local combinado uma hora antes do encontro? Esperamos um quarto de hora e mais outro, impacientemente. Não temos telemóvel, logo não estamos contactáveis. É como se não existíssemos! Desistimos da espera? Provavelmente, o nosso amigo atrasou-se e não tem como alertar-nos. Ter-se-á esquecido? O que poderá ter sucedido com ele? Um enorme número de suposições, de pensamentos negativos. Escusadamente. Mas pronto, abdiquemos lá do telemóvel para podermos viver por mais vinte e quatro horas. 

E no dia seguinte? O diabo propõe que desistamos do relógio. Já não temos telemóvel para ver as horas. E agora? Vamos guiar-nos como os antigos pelo sol, pela luz do dia ou pela falta dela, para orientarmos os nossos comportamentos? Grande confusão. Vá lá, abdiquemos também do relógio e de todos as formas de medição do tempo! Que valor terá um relógio, quando sabemos que vamos morrer brevemente? O diabo apresenta outras propostas: chocolates, filmes, música…Por favor, isso não!

Isto é o que acontece ao protagonista desta história. E se o diabo lhe pedir para desistir do seu gato? O Repolho? Sim, é este o seu nome. Já estão a imaginar por que razão terá ele este nome?

Estará ele disposto a deixar desaparecer o único ser que mora consigo desde que a mãe morreu e ele nunca mais quis estar com o pai, um relojoeiro? 

É neste conflito que o narrador autodiegético se encontra quando todo o passado lhe vem à memória. Dias felizes com o pai, no cinema, ainda criança. Dias tristes com a mãe enferma. E o sentido da vida, qual é o sentido da vida, se abdicarmos de tudo o que gostamos? Há coisas de que gostamos e podemos prescindir, dizemos nós, com determinação. Mas quais, no momento da escolha?

Esta reflexão leva a personagem, sem nome, só sabemos que é carteiro, a decidir que não vai substituir mais nada por mais um dia de vida e decide deitar fora tudo o que amontoava em casa. Desapegar-se de todas as coisas que passariam a ser inúteis.

O fim é enternecedor. Escreve uma carta. Veste a sua farda de carteiro. Esta será a sua última entrega do correio ao domicílio. Parte na velha bicicleta. Leva o gato consigo. Quase sem força, consegue chegar ao destinatário e não morrerá sozinho. Há sempre alguém que nos espera.

Gostei. Lê-se numa tarde quase sem sol. De uma forma simples, comovem-nos as incertezas e as desilusões por que passamos todos os dias. Na antecâmara da morte, anunciada ou não.

Boa leitura!

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.