ARTIGO DE OPINIÃO: “Gordura não é formosura”- a obesidade infantil

23/08/2021 10:35

O ditado popular “Gordura é formosura” faz cada vez menos sentido face ao conhecimento crescente da população sobre os efeitos nefastos do excesso de peso. 

Mas estaremos nós realmente conscientes de todos os seus malefícios?

A obesidade caracteriza-se por um excesso de gordura corporal que condiciona o estado de saúde. Trata-se de uma doença crónica, multifatorial e que se associa a um maior risco de desenvolvimento de doenças crónico-degenerativas. A alimentação desequilibrada e/ou uma reduzida prática de exercício físico são dos principais fatores que influenciam esta doença. Estes hábitos de estilo de vida encontram-se enraizados não só no próprio doente, mas, muitas vezes, estendem-se a toda a família. A intervenção médica é crucial para quebrar o padrão repetitivo de comportamento familiar principalmente quando surge um novo membro na família. 

A obesidade infantil encontra-se em crescimento a nível mundial sendo a doença pediátrica mais prevalente e um dos maiores problemas de saúde pública do século XXI. Portugal encontra-se dentro dos países com maior taxa de obesidade infantil e, apesar de ser uma tendência em decrescendo (Childhood Obesity Surveillance Initiative for Europe, COSI Portugal 2019), é necessário fazer um esforço e reforçar o trabalho contínuo neste sentido. É importante referir que a pandemia COVID19 poderá contrariar essa tendência pelo grande impacto que teve nas nossas rotinas.

É recomendado pela Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP) que a alimentação pelo aleitamento materno seja exclusiva até aos 4-6 meses de idade, iniciando-se posteriormente a alimentação complementar e a sua diversificação até que aos 12 meses, altura em que a criança deverá estar integrada na dieta familiar.

O período de diversificação alimentar é um período de descoberta de novos alimentos e novos sabores para a criança, sensível de estimulação, acarretando influências para toda a vida, sendo o padrão alimentar futuro estabelecido no segundo ano de vida. Por isso, a alimentação durante a primeira infância é uma das áreas onde a escolha parental pode ter influência significativa a curto e a longo prazo no status de peso da criança. Para além da influência materna extra útero, estudos apontam para a existência de ligação entre a alimentação materna durante a gestação e as escolhas alimentares futuras da criança. 

Muitos estudos apontam um baixo consumo de frutas, legumes e micronutrientes em comparação a um elevado consumo de proteínas, gorduras saturadas e alimentos açucarados na alimentação da primeira infância. Estes hábitos estão associados a um maior risco de desenvolvimento de obesidade, tornando-se esta, não num problema individual, mas familiar e populacional, devendo ser trabalhada em todas as suas vertentes e fases da vida.

Parte da população poderá não reconhecer os problemas que a obesidade acarreta, outras compreendem que encontram uma batalha difícil de travar. O aconselhamento especializado com um profissional de saúde é necessário para uma orientação adequada no que toca à melhoria dos hábitos alimentares e de atividade física. Podem ser pequenos gestos… Desde estacionar um pouco mais longe do emprego, a não usar o elevador quando pode utilizar as escadas, ensino da leitura de rótulos, o planeamento de refeições e da lista de compras, evitando assim as opções rápidas que, apesar de tentadoras, escondem uma oferta precária de nutrientes.

Por isso, caro leitor, deixo-lhe o desafio de contrariar o ditado… Não no sentido de criticar a figura e forma, mas sim num caminho de escolhas saudáveis para o nosso corpo.

Recorde-se que as nossas escolhas de hoje têm consequências no amanhã, sendo fundamental ensinar os mais novos disso mesmo…. Pela saúde deles e pela saúde de todos nós.

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