ARTIGO DE OPINIÃO: Eu, vénula, me confesso.

21/10/2021 19:30

Quando ponderei fundar uma associação cultural, motivado pela sugestão de um amigo da altura, confesso que desconfiei do entusiasmo com que me “pintaram” o tal do “espírito associativo”. Talvez por vir de um contexto francamente oposto, alicerçado numa ótica empresarial, comercial, onde a competição, a concorrência feroz e a voraz máquina, alimentada a folhas de cálculo e balancetes, estatísticas de receitas versus despesas, cachets e metas finais que viajavam muito para além do objetivo modesto do break even. De onde eu vinha, ninguém trabalhava de borla por uma causa comum e essa coisa do “amor à camisola” era língua estrangeira.

Desconfiei, confesso, mas garantiram-me que não. Que o espírito associativo era coisa pujante na província. Que as associações eram feitas de pessoas cheias de paixão no peito e fervor no olhar. Que o romantismo de trabalharmos todos juntos para um mesmo fim estava vivo e de boa saúde. Mas não. O associativismo morreu. Não há milagres. O sacrifício não é camisola que sirva a toda a gente.

E se associação tiver propósitos sérios de crescimento, se tiver – meu Deus! – a ambição de ser mais do que uma agremiação local para jogar às cartas e beber “minis”, depressa se verá a braços com a necessidade de contratar. Mas contratar como e quem? Se, por muito que se cresça em qualidade e quantidade de produção, continua a ser a tal de entidade sem fins lucrativos e sem apoios regulares que possam acompanhar e premiar esse crescimento e auxiliar a sua sustentabilidade?

É impossível dirigir com sucesso, nos tempos em que vivemos, uma associação, sem se ter uma visão profissional e dinâmicas sobretudo assentes em estratégias que forçosamente emanem das lideranças e que possam trazer mais-valias aos órgãos associativos. Atenção! Não me estou a referir apenas a remunerações. Dependendo das áreas de inserção e de género associativo, assim deverão ser os benefícios genéricos que permitam às entidades planificar e executar com qualidade e garantias, assentes em orçamentos realistas. As autarquias têm aqui um papel preponderante e fulcral. No seu “orçamento associativo” deverão ter a coragem de diferenciar entre as associações fantasma ou estagnadas nos tais jogos de cartas regados a “minis” e as que fazem a corrida de fundo, cruzando a meta tantas vezes com graves faltas de ar. Deverão incentivar o estatuto cultural e recreativo, desportivo e lúdico de qualidade, motivando as associações a apostar na sua organização estrutural, acompanhando os seus planos de atividades; para poderem assim atribuir com critério e por mérito os apoios tão fundamentais ao incentivo e sobrevivência associativas.

Em suma, deixar de dar de beber sem critério aos vícios do passado e hidratar que tem realmente sede. Para que não continue a acontecer com tantas associações o mesmo que acontece com os cachorros que se levam para casa no Natal e se abandonam nas férias, à primeira contrariedade. Obviamente, no interior ainda desertificado, é mais difícil tudo. Principalmente, sobreviver. E, por isso mesmo, mais necessário.

Só com o despertar de verdadeiras políticas culturais nas autarquias se conseguirá vencer o estigma das migalhas que miseravelmente caem do Orçamento de Estado. 0,25%??? Se o Estado fosse o próprio corpo humano, nós… a Cultura… seríamos uma vénula. A veia mais pequena, quase invisível, do corpo humano. Ainda assim, capaz de correr a maratona todos os dias, cruzar a meta quase sem ar. Isto tudo… sem beber pinga de água.

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