ARTIGO DE OPINIÃO: Eterna lenda do Tarzan dos macacos

25/05/2022 19:30

Foi sem margem de dúvida a minha primeira indiscutível sedução para o mundo da literatura, a minha incursão na narrativa fantástica da Lenda do Tarzan, o Homem Macaco. Uma obra genial, inspiradora, uma viagem inesquecível pelos meandros das selvas africanas. Um rapaz como eu, de oito ou nove anos, ao ler as maravilhosas aventuras deste Herói da Selva, juraria que um dia haveria de tentar inventar e reviver histórias assim. Tarzan é sem margem de dúvidas a referência original do herói de aventuras, que em muito contribuiu para a minha sede de leituras e início na escrita narrativa. 

Vem esta crónica a propósito de uma adaptação da História lendária do Tarzan para a Banda Desenhada (Tarzan o Senhor da Selva) , e que recentemente adquiri. Uma reedição brasileira da Pipoca & Nanquim, de março deste ano, reunindo várias das histórias da narrativa literária. Um maravilhoso álbum colorido, com mais de 300 páginas. 

Tarzan tornou-se personagem de extraordinária popularidade. Criado pelo escritor norte-americano Edgar Rice Burroughs em 1912, a história foi publicada na imprensa periódica. Em 1914 sairia a primeira história em livro, intitulada Tarzan of the Apes (Tarzan dos Macacos). No total, o ciclo atingiria perto de 30 volumes, conhecendo-se traduções em várias dezenas de idiomas. 

Sendo Tarzan ainda criança, um naufrágio lança-o, com os pais, na costa africana. Os pais morrem e Tarzan é adotado por uma macaca que acaba de perder uma cria. Crescendo entre os macacos, a personagem nada sabe dos usos e costumes civilizados, nem da sua própria identidade de inglês e aristocrata. Vem a descobri-los em contacto com um grupo de exploradores da selva, acabando por assumir o seu título de Lord Greystoke e o seu nome de batismo, John Clayton. Porém, nunca se consegue adaptar à vida na civilização, voltando sempre para a selva.

A história do homem que domina as feras com a sua coragem, a sua força e a sua astúcia presta-se a uma diversidade de interpretações. Enquanto vinca a superioridade humana sobre as bestas e o ambiente inóspito, revela também a dimensão agressiva do homem. Por outro lado, se a história contém um argumento de fundo colonialista – porque o indivíduo em causa é um branco no continente negro -, mostra um herói que, graças a um sentido inato de justiça, respeita a integridade de África, não permitindo a sua exploração desenfreada por parte do homem branco.

Para além do cinema, a história cativou os artistas de Banda Desenhada. No início do ano de 1929, “Tarzan” passa também a ser adaptado para banda desenhada, aparecendo as suas aventuras oficialmente nos jornais diários americanos, distribuídos pelo “Metropolitan Newspaper Syndicate” (um ano mais tarde integrado no “United Features Syndicate”), sob a forma de tiras diárias assinadas por Harold Foster, um prestigiado publicitário reconvertido, entretanto, ao realismo figurativo da banda desenhada.

Harold Foster, o primeiro autor das tiras diárias, que aparecem pela primeira vez a 7 de Janeiro de 1929, desenha, assim, as 60 primeiras tiras. Muitos outros lhe sucederam, como os fantásticos Hogarth, Russ Manning e Joe Kubert. 

Este recente álbum é uma iniciativa da Marvel Comics, edição assinada por Stan Lee, e pelos quadrinistas Roy Thomas e John Buscema, um clássico revisitado por dois génios da banda desenhada da atualidade (e já responsáveis pelo sucesso de Conan, o Bárbaro). Um verdadeiro tesouro artístico, que ocupará um espaço muito especial na minha biblioteca, e de qualquer outro apaixonado por este herói ou pela Banda Desenhada. 

E desengane-se quem pense que a História serve apenas um público infantojuvenil. Tarzan leva-nos a repensar a nossa relação com o ambiente e com outras espécies animais, como um prenúncio de todas as problemáticas que hoje enfrentamos em relação à sustentabilidade e equilíbrio das espécies e dos ecossistemas (quando ele mesmo, há 100 anos atrás, luta na selva contra os negociantes de espécies exóticas para fins comerciais e lúdicos).

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