ARTIGO DE OPINIÃO: E não viveram felizes para sempre

16/09/2021 19:30

Maria Judite de Carvalho leva-nos ao contacto com o quotidiano, num olhar lúcido sobre a condição humana, em que os sonhos são silenciados para dar voz à solidão, na qual as personagens vivem enclausuradas como numa casa cuja porta da rua não abre. Nesta casa – que, às vezes, são quartos alugados, quartos de hotel ou de hospital – moram também espelhos e fotografias, emoldurando a passagem do tempo: rostos marcados de gente viva, rostos lisos de gente morta. «Tão mortos, Senhor.» (As impressões digitais).

Na ausência de outras vozes, são os móveis que falam. Rangem, estalam, gritam. Sobretudo à noite. Sobretudo cómodas. Cómodas tão vivas que se diria poderem secar (Sentido único) ou florir «como no seu sumptuoso tempo vegetal» (Os dias da cor de longe). Cómodas que estalam «porque um pedacinho de matéria inerte se pusera, de súbito, a viver.» (Paisagem sem barcos). Cómodas que acompanham os últimos momentos das personagens (A mancha verde) e que sentem a sua morte: «Então caminhou com dificuldade para a cama, deitou-se e fechou os olhos. A cómoda estalou.» (Sentido único).

Em Maria Judite de Carvalho, os móveis – e os objetos – não servem só para preencher um espaço e mobilar uma divisão; ocupam um lugar simbólico que acentua a solidão das personagens. As coisas ficam, as pessoas não. Os objetos são as únicas coisas que ficam das pessoas que partem e, nessa permanência, «seguram o tempo». (As máquinas de segurar o tempo). Por isso José não aguentou quando descobriu que a sua mulher-a-dias, a insuspeita dona Augusta, lhe tinha roubado «a caixa de estanho e o cinzeiro de prata e o solitário e muitos outros marcos da sua vida», «e fechou para sempre os olhos.» (As impressões digitais). Por isso Dora Rosário detesta móveis antigos, metem-lhe medo (Os armários vazios), como se a eles viessem agarrados os mistérios daqueles a quem pertenceram. Por isso Eduarda diz a Rosa que não tenha receio de usar as gavetas da cómoda do seu novo quarto, que «foram bem lavadas» (Havemos de rir?) de antigas presenças. Por isso George prefere casas em que nada lhe pertença, para poder partir «sem que os objetos a envolvessem, a segurassem, a obrigassem a demorar-se» (George), presa à ideia de não se deixar prender. 

Ao contrário dos naperons que enfeitam os móveis, Maria Judite de Carvalho não põe paninhos sobre os dias desencantados das personagens, antes escancara a solidão dessas vidas que ficaram por preencher, como se fossem armários vazios

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