ARTIGO DE OPINIÃO: É de pequenino que se diz o versinho

20/10/2021 19:30

Em Os Maias, para além de vincar a oposição relativamente à enérgica educação à inglesa de Carlos da Maia, Eusebiozinho também está ao serviço da caricatura do Portugal oitocentista, como exemplo paradigmático da endémica doença romântica de que o país padece e que a debilidade, a «moleza» e a «amarelidão de manteiga» da personagem representam, enfermidade agravada pela tenra exposição a uma literatura lamurienta e melodramática de que A Lua de Londres é máxima representação e cujos «lindos versos» a criança, face à pressão da «mamã», acaba por despejar num «recitativo lento e babujado»:

É noite, o astro saudoso

Rompe a custo um plúmbeo céu,

Tolda-lhe o rosto formoso

Alvacento, húmido véu…

Saber de cor os 90 versos deste poema é, na verdade, um feito extraordinário para uma criança, mas não é exclusivo do «precoce letrado»; já em O Conde d’Abranhos (texto escrito em 1879 e que veio a ser publicado postumamente) pudemos ouvi-lo recitado à soirée pela «boquinha» de Julinha, também «amarelinha», também «precoce», também «mole» e também dirigida pela mãe (como acontece igualmente com o pequeno Gonçalo Mendes Ramires, de A Ilustre Casa de Ramires, que recita os versos «ensinados pela mamã»).

Se o facto de ambas as crianças, Julinha e Eusebiozinho, recitarem A Lua de Londres e partilharem os mesmos traços caracterizadores reforça, por um lado, a crítica à «estiolada» educação nacional, reforça igualmente, e com particular intensidade, a crítica a um romantismo doentio e exacerbado, ridicularizado com o mesmo garbo com que Eusebiozinho é vestido de escocês, sem esquecer o pormenor requintado de uma «rutilante pena de galo» no boné, que tanto mais se arqueia quanto mais a irónica pena de Eça de Queirós dela quiser troçar; se ao Eusebiozinho não é tirado o boné para não perder «o ar nobre de um Stuart» e de «um valoroso cavaleiro de Walter Scott», a Eça de Queirós temos de tirar o chapéu pela riqueza e expressividade das suas descrições, tão deliciosas quanto incisivas; para um país de -inhos, uma escrita enorme.

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