ARTIGO DE OPINIÃO: E assim, de repente, ele morreu…

14/01/2022 18:04

Nasceu em Nova Iorque. Era março no mundo inteiro. Mas só nove anos depois, o mundo ficaria irremediavelmente ligado à sua existência, quando Stephen Sondheim entrou no Alvin Theatre na Broadway, para assistir ao musical Very Warm for May com a coautoria de Oscar Hammerstein II, aquele que viria a ser a sua figura paternal e seu mentor para o resto da vida.

A influência de Hammerstein sobre o trabalho futuro de Sondheim haveria de vir a ser avassaladora, até Sondheim se tornar, por si só, senhor da sua própria genialidade.

Mergulhar na sua música, nas suas letras e na sua forma de contar histórias é irresistível, eu diria até, viciante. Na composição musical, conseguir o equilíbrio perfeito é difícil. Se o número de camadas de uma peça musical for exagerado (sejam elas frases musicais, letras ou conceitos), ela poder tornar-se demasiado turva e confusa. Por outro lado, se a tornarmos demasiado simples, ela pode cair no delicodoce ou superficial. Sondheim é mestre neste equilíbrio. Consegue dar-nos precisamente a dose certa de ambos – o suficiente para nos cativar, sem chegar a tornar as suas canções previsíveis. É frequente incluir vários componentes numa mesma canção, cada um deles com conceitos de composição diametralmente opostos. A composição de Sondheim é uma montanha russa de emoções compostas pela sobreposição de várias ideias musicais em simultâneo, a alternância tonalidades, métricas e dinâmicas, num controlo total e inabalável da construção musical.

E essa complexidade, esse intrincado resultado, na minha opinião, é a razão pela qual a sua música é viciante de ouvir, de estudar e de tentar compreender.

“God, that’s Good” do musical Sweeney Tod, “Getting Married Today” do musical Company, “It’s Your Fault” do musical Into the Woods, “Putting it Together” do musical A Sunday in the Park with George mostram bem este traço tão distintivo de Sondheim.

Mas depois, depois vêm também alguns dos mais belos e maravilhosamente trágicos temas de teatro musical de sempre, escritos de forma silábica que, apesar de poder parecer limitadora, quando combinados com as suas letras, abrem um mundo maravilhoso de inesgotável capacidade expressiva. Nos musicais de Sondheim, as personagens parecem falar mais do que cantar, o que lhes confere uma credibilidade maior e oferece ao público a sensação de testemunha ocular de uma cena real. Outras vezes, a simplicidade romântica e desconcertante toma lugar como que para dar espaço e tempo ao nó na garganta de passar. Melodias só por si belas, mas que ganham vida pela mão do contexto que as conta. E os silêncios – as pausas entre as frases melódicas que são escritas para contar momentos de vulnerabilidade, de ternura, de dor.

“In Buddys Eyes”, “Being Alive”, “No one is Alone”, “No more”, “Send in the clowns”…

As canções de Sondheim são mais do que canções. São a alma dos seus personagens.  Nua e crua. A música de Sondheim é humanidade. O bem, o mal e tudo o que somos pelo meio. 

Era dia 26 de novembro e estávamos precisamente no palco a ensaiar o seu “Into the Woods”. E, de repente, ele morreu. Cantámos o seu “Gigantes no Céu” e chorámos.

Assim, de repente, ele morreu… Com tanto ainda para dar. Na flor da idade.

Tinha 91. 

O mundo, esse, envelheceu.

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