ARTIGO DE OPINIÃO: Drácula e a importância dos mitos

22/09/2021 19:30

“Gosta-se de acreditar que as coisas em seu início se encontravam em estado de perfeição; que elas saíram brilhantes da mão do criador”. (Michel Foucault) 

Os mitos tiveram (e continuam a ter) uma importância vital num quadro humanista de compreensão da natureza das coisas, do equilíbrio universal, do papel da Humanidade no Universo. Os mitos surgiram da necessidade de responder ao inexplicável, dar nomes aos fenómenos inomináveis (mesmo e sobretudo os mais obscuros, como os segredos da vida e da morte) , e rememorar tempos muito remotos que ultrapassam a memória dos viventes. 

Desde os primórdios da Literatura e das Artes que os mitos tiveram na sua essência esta sublime função: dar respostas às perguntas sobre o mundo, sobre como as coisas funcionavam e se relacionam com a Humanidade. A função atribuída ao mito é a de narrar de que forma tudo o que nos circunda foi criado. E aqui os mitos tanto se aproximam da Literatura (Prosa e Poesia). 

O mito é a primeira forma de ciência, pois se trata de especulações sobre a origem do mundo. (BIERLEIN, 2003). “O mito é a primeira tentativa tateante de explicar como as coisas acontecem, o ancestral da ciência. Também é a tentativa de explicar por que as coisas acontecem, a esfera da religião e da filosofia.” (BIERLEIN, 2003, p. 19).

Alguns mitos recentes foram mesmo criados pelo universo literário, como o incrível e arrepiante mito do sombrio Drácula, que aqui se recorda numa versão absolutamente maravilhosa, artisticamente absorvente e iluminante, pela arte de GEORGES BESS (adaptação do clássico de horror gótico de Bram Stoker). O romance, publicado em 1897, num quadro social tenebroso saído da revolução industrial, adquire nesta adaptação para a Banda Desenhada novos campos para a fantasia, aproveitando o lado mais obscuro do monstro para construir uma narrativa a preto e branco de profundas atmosferas românticas e góticas. Bess consegue nesta adaptação magistral expressar a sua visão e personalidade através do desenho e da narrativa, construindo momentos únicos de uma verdade visceral e primordial, que a poesia das palavras e a magia das pranchas a negro conseguem emoldurar de forma magistral. 

Esta edição de A Seita (2021) procura inserir-se numa coleção de exploração de novas visões da BD sobre clássicos da literatura mundial, visões que não só respeitem como acrescentem algo de artístico à narrativa original, procurando novas perspetivas de abordagem daquilo que julgamos bem conhecer, mas que afinal mantém escondido muito por descobrir. Arrisco-me a afirmar que estaremos perante uma nova obra-prima da Banda Desenhada atual, um tesouro para admirar e repetir, como manjar divinal de letras e de arte. E ao contrário das últimas palavras do romance …”e ninguém terá de acrescentar nada a esta história, já que nunca mais falaremos dela…!”. 

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *