ARTIGO DE OPINIÃO: Deambulações em redor da Vitela de Lafões

15/09/2021 19:30

A Confraria dos Gastrónomos da Região de Lafões cumpre no presente ano um quarto de século de trabalho continuado a honrar, preservar, divulgar e prestigiar os sabores e os saberes gastronómicos tradicionais do território de Lafões. 

O sabores da terra são intemporais, quando procedem do amor pelo território e pelas suas raízes, quando derivam do suor plantado por quem amanha a terra como ama e sofre para dar sabor a cada dia, a cada prato fumegando sobre a mesa, quando saboreia para existir e para agradecer a Deus… A região de Lafões é farta de sabores ancestrais, uns provenientes das dificuldades do amanho da terra, outros arrancados a distantes rituais de criação e adaptação, ao longo de séculos de construção de receituários e paladares genuínos. 

Um destes mais agradados sabores provém das raízes e dos pastos, das águas e do amor pela criação e gado em cenário de montanha. Falamos da mui conhecida (e reconhecida) vitela de Lafões: Vitela assada à moda de Lafões; Vitela assada na padela; Vitela de Lafões assada no espeto; …).

A vitela de Lafões é uma carne nacional, certificada e com indicação geográfica protegida (IGP), resultante de bovinos das raças arouquesa, mirandesa ou dos seus cruzamentos, abatidos até aos 7 meses de idade. 

Os animais são alimentados exclusivamente com leite resultante das pastagens locais, verdejantes e ricas em tojo, giesta, rosmaninho e carqueja e de produtos naturais selecionados. A qualidade organolética da Vitela de Lafões IGP deriva essencialmente do microclima da região de Lafões, que gera os pastos verdes e viçosos da bacia do rio Vouga, onde o clima é húmido e abrigado.

Os animais continuam a ser criados em pequenas organizações, de base familiar, onde persistem os métodos tradicionais de alimentação.

Tais particularidades, associadas à qualidade das raças autóctones que lhe dão origem e à idade do abate, resultam numa carne muito saudável, saborosa, suculenta e com características ímpares, cuja qualidade é reconhecida desde tempos ancestrais. A vitela de Lafões encontra-se ligada a pratos gastronómicos que compõem refeições principais, confecionados com carne certificada de bovinos jovens. A vitela de Lafões possui um sabor intenso e sui generis, com carne tenra e muito suculenta .

Em 1858, em “archivo rural”, Silvestre Bernardo de Lima (notável académico e professor, que em 1870 foi o responsável pelo Recenseamento Geral dos Gados), referiu-se a estes animais nos seguintes termos: “Vitelas e bezerrinhos, que se não recriam, tanto ao leite como logo depois de desmamados têm bastante procura para o açougue e dão a afamada Vitela de S. Pedro do Sul e de Lafões.”

Mais tarde, em 1994, o despacho 55/94 do Secretário de Estado dos Mercados Agrícolas e Qualidade Alimentar, publicado na 2.ª série do Diário da República de 03/02/94, veio reforçar o estatuto da “vitela de Lafões” e estabelecer as normas de produção.

É da maior importância e urgência que as autoridades e autarquias olhem para a produção desta singular carne de vitela de montanha para evitar algum colapso na sua já difícil produção atual, fruto de alterações climáticas e da paisagem serrana, grande migração de juventude, abandono de práticas tradicionais e dificuldades de equilíbrio ambiental. 

Delimitação geográfica: Concelhos da região de Lafões e concelhos limítrofes.

Créditos: “Carta gastronómica da Região de Lafões”

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