ARTIGO DE OPINIÃO: Centenário do nascimento de José Saramago

03/08/2022 19:30

De memórias nos fazemos é o novo título do livro de Violante Saramago Matos, publicado pelas Edições Esgotadas, em março de 2022.

O apelido da escritora aproxima-a de uma grande figura do panorama literário de língua portuguesa. Trata-se da única filha do nosso Nobel – José Saramago. Durante anos, Violante, que escreve sobretudo para um público jovem, não utilizava o nome Saramago para, de alguma maneira, se distanciar não do pai, a quem sempre a ligaram laços de infinito afeto, mas da figura pública que ele era. 

O apelido Saramago trata-se de uma alcunha pela qual era conhecida a pobre família de Azinhaga que vivia do sustento dos porcos que se alimentavam desta planta. José Saramago evoca a origem do seu nome e a grandeza dos seus avós no discurso que proferiu em Estocolmo, no dia em que recebeu, com pompa e circunstância, o alto galardão literário, em 1998. Já tinha apreciado, três anos antes, o sabor do Prémio Camões, o mais importante da literatura de língua portuguesa.

Nesta pequena narrativa memorialista, com algumas ilustrações fotográficas do espólio familiar, a filha assume a vontade de mostrar o pai como ele era na sua relação familiar. O livro é feito de lembranças da intimidade de um pai e de uma filha na tríade de uma família comum, daí que a escritora nos traga a mãe, Ilda Reis, excelente gravurista, mostrando um pai e uma mãe com quem viveu 23 anos.

Neste ano em que se multiplicam comemorações oficiais, um pouco por todo o lado, coordenadas pelo nosso mestre Carlos Reis, insigne professor da Universidade de Coimbra, recentemente jubilado, que se tem desdobrado em iniciativas no sentido de evocar esta figura magistral, a filha disse-nos, na apresentação deste livro, que nada mais poderia fazer neste centenário do seu nascimento se não mostrar o pai na sua comum humanidade. E confessa que o tempo da escrita, o tempo da pandemia, favoreceu este reencontro com o pai e com os seus livros.

Fazendo jus ao título, Violante relata pequenas grandes memórias da sua infância e juventude e da ligação de respeito que os unia. A filha evoca o pai com quem fisicamente se parece muito. Além das memórias que perduram na mente de qualquer criança e adolescente, procura a recapitulação de um tempo em que ela e o pai conversavam acerca de livros e de leituras. Fala-nos das suas experiências de leitora, algumas vezes em primeira mão, dos textos de Saramago de quem muito se orgulha, quer da sua atitude cidadã, que recorda pelo exemplo, quer do seu contributo para a história da literatura e a forma inovadora da sua escrita.

O que pode fazer uma filha no centenário do nascimento do seu pai? Uma filha que fica propositadamente ou é colocada à margem das comemorações oficiais? Violante responde que este livro resultou de uma necessidade, de uma homenagem singela ao pai, com quem muitos pensam que não se relacionava bem. Este livro desmente-o. Violante ocupa um lugar que lhe pertence. O daquela que tem nas veias o sangue de José Melrinho e Josefa Caixinha, agricultores analfabetos, mas excelentes contadores de histórias, personagens de uma história de vida que iluminou o génio literário de José que devia ser só de Sousa, mas descobriu que, no registo, também era Saramago.

Violante associa-se, de forma inequivocamente legítima, ao tempo da comemoração, ao tempo da gratidão e do reconhecimento público pela honra de ser sua filha. Quer mostrar-nos como Saramago foi um extraordinário pai, foi um extraordinário pensador sobre o seu tempo, um homem frontal que, antes e depois do Nobel, assumiu a responsabilidade cívica de um cidadão comprometido com a defesa dos mais desfavorecidos, com a defesa dos direitos humanos. 

Leiamos as suas obras. As suas personagens comuns são a máquina que faz mover um país, que faz construir os sonhos dos reis megalómanos e que a História oficial esquece. As suas personagens são de carne e osso, são homens e muitas mulheres que nos interpelam e nos servem de lição. Daí a intemporalidade dos seus textos.

Neste centenário do seu nascimento, lê-lo é a melhor maneira de o homenagearmos.

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