ARTIGO DE OPINIÃO: As palavras do Menino e a frase do Pai

22/12/2021 18:30

O objeto nunca é só o objeto. É também aquilo que o sujeito lhe acrescenta, a forma como o vê e o que nele vê. É por isso que um texto nunca é só esse texto, é também memória de outras leituras e diálogo com outras vozes. Um texto não é só aquele que se lê no momento, mas todos aqueles que se leram antes e que, aqui e ali, numa ou noutra página, pelas semelhanças que encontra, o leitor reconhece.

No final da década de 60, no jornal A Capital, Saramago publica o texto Um natal há cem anos, mais tarde incluído no volume Deste mundo e do outro. Como é normal em noite de consoada, está uma «Família» reunida à volta da mesa e, enquanto se contam «casos e anedotas», há uma «Criança» que tem «também uma história para contar» e espera pelo momento de falar. No entanto, a atenção que lhe é dada não dura muito e «alguém corta a narrativa com uma frase que faz rir toda a gente», frase essa que, pelo contrário, «vai fazer chorar a Criança». Então, ridicularizada e impedida de acabar a sua história, a «Criança levanta-se da mesa, abre a porta, separa-se da Família e desce os três degraus que conduzem ao mundo».

Em História de um muro branco e de uma neve preta (1995), cuja primeira parte é constituída pela reescrita de Um natal há cem anos, Saramago quis acentuar a cisão entre a «Criança» e a «Família», ao dizer que «é o Pai que lhe corta a narrativa com uma frase que faz rir toda a gente». Essa frase, como já sabemos, «vai fazer chorar a Criança»; não sabíamos ainda que era um Menino, sabemo-lo agora: «Porque o Menino, a Criança é um menino, levanta-se da mesa, abre a porta, separa-se da Família e desce os três degraus que conduzem ao mundo». 

Esta separação entre a «Criança» e a «Família» fez-me lembrar o poema VIII de O Guardador de Rebanhos, de Caeiro, em que Jesus, «tornado outra vez menino», desce à terra e deixa no céu as restantes pessoas da Santíssima Trindade, com as quais não se identifica. Na verdade, tanto em Saramago como em Caeiro há uma criança – um menino – que se separa da família, separação essa marcada por um movimento descendente que aproxima ambas da humanidade: uma desce três degraus em direção ao mundo, outra desce à terra «pela encosta de um monte». Esta porque é «a Eterna Criança», e não pode ser esquecida em cada um de nós; aquela porque não teve voz num mundo que se esqueceu de ouvir – e de ouvir aquilo que ele mesmo apregoa, distraído do verdadeiro significado do Natal.

Que, neste Natal, saibamos ouvir a Criança com o amor com que nos fala. 

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