ARTIGO DE OPINIÃO: Antes de tudo a Poesia.

18/10/2021 10:29

O poeta procura as respostas através da alquimia da palavra. A palavra que há de explicar o sentido das experiências contraditórias, a palavra que há de esclarecer os enigmas, os mistérios do ser e não ser da nossa dupla face. A palavra com o seu duplo poder: o de libertação, por um lado, porque permite a questão, a insubordinação, e o de condenação, por outro, porque não existe a palavra certa. A única palavra ou a palavra única.

A palavra é a pátria que nos distingue dos outros seres, pátria imperfeita, mas a única que nos é permitida. Por isso, a procuramos, ao procurarmo-nos numa luta corpo a corpo, letra a letra. Não há senão esse buscar, na vida e na escrita.

A palavra poética pode ser o único antídoto para a solidão que nos habita. Somos seres estranhos e estrangeiros. Estranhos, porque incapazes de nos encontrarmos na plenitude. Estrangeiros, porque eternamente incompreendidos, mesmo na nossa própria língua, como que falando um código indecifrável. Habitamos um espaço de incertezas, de inquietações. A poesia pode ser um refúgio, mas é, seguramente, um grito de libertação.

O poeta interroga o tempo e os seus sinais. Exorciza os fantasmas, ultrapassa o perecível, mitifica o sonho. Vence as espadas do sofrimento. Através da palavra inscrita no branco, do papel ou da tela do computador, aportamos à ilha que não há, à perfeição que não existe.

O poema é, muitas vezes, a única forma de convocar a paz, a liberdade e a libertação para o homem. Só ele permite recuperar o irrecuperável, nomear o indefinível, expurgar os sentimentos de medo e de ansiedade, recuperar a identidade, ultrapassar a finitude, transcender o humano.

A nossa literatura nasceu como poema que se destinava a ser cantado. Que o digam os nossos primeiros trovadores. Que o diga D. Dinis, o poeta.

Por isso, antes de tudo, a poesia.

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