ARTIGO DE OPINIÃO: #ACulturaÉSegura

15/04/2021 21:00

Habituado à insegurança eterna, crónica e constante da falta de chão, da falta de ar e de futuro para ver adiante, foi o senhor da Cultura surpreendido por uma aparente democrática doença que tapa com máscaras todas as bocas, mas ficam algumas entreabertas onde ainda podem entrar as moscas.

E como se não lhe bastasse esta insegurança impregnada de Nada, própria da sua condição mal-amada de fornecedor de conteúdos considerados por muitos cérebros doutorados como secundários, fúteis, desnecessários, não-essenciais, superficiais, banais, e sabe lá Deus que mais… Como se não lhe bastasse também nada ser para quem decide que é ”Só quem eu quiser!” … E como se não lhe bastasse esse tradicional quase sumério critério de o acusar ter escolhido ser artista em vez de ser sério… Eis que chegou uma pandemia para dizer ao Sr. Presidente, ao Sr. Padre e à senhora minha tia que “Não, não… não pode ser! Se eu for ao Teatro, o mais certo é morrer!” Eis que chega o tal do vírus, de espada em riste e armadura, a gritar que a minha insegura condição de cultura afinal também não oferece segura condição higiénica, para evitar que a pandemia seja menos pandémica. Principalmente para quem vem do Continente, acabadinho de comprar melão especialmente selecionado com a própria mão. Ou para quem vem, por exemplo, de França, com a mulher e a criança, de visitar o tio Zé e o tio João, mesmo acabadinho de sair do avião. Deus nos livre de sentar o traseiro, em sala fechada, higienizada, com a distância salvaguardada, sem intervalo, sem xixi, nem nada. “Deus nos livre!”, diz a senhora minha tia. “Aquilo lá nas plateias deve estar cheio de pandemia. “

E assim vai andando o senhor da Cultura. Nem mosca morta, nem fura-fura. A pensar que talvez seja desta que chegue alguém com dois palmos de testa e se lembre que ele, afinal, também presta.

Ai espera! Salvação! Chegou a bendita vacina! Que alegria! Que emoção! Em Outubro é que vai ser! Tudo a querer Cultura para Português ver! Vão chover eventos, concertos, récitas, hinos e tostões! Muda o Sr. Presidente de intenções. Muda o Sr. Padre os sermões! Muda a senhora minha tia de preocupações. “Que alegria!”, diz ela bem-disposta sem máscara à janela. “Tanta falta que animar a malta fazia!” Em Outubro, com ou sem pandemia, haja chuva, sol ou trovões, qualquer coisinha se arranja, porque há eleições!

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