ARTIGO DE OPINIÃO: “A saúde mental é coisa de todos”

11/09/2021 19:30

No mês em que se celebra a saúde mental, parece-me importante abordar o estigma ainda associado a esta área. Quem nunca ouviu frases como “ir ao psicólogo é para malucos”, “se ocupares a cabeça isso passa-te”, “são é desculpas para não trabalhar”, entre muitas outras que são ditas ainda diariamente em pleno século XXI. No contexto da saúde, a saúde mental é das áreas mais afetada pela questão do estigma, o que traz muitas consequências negativas para o quotidiano das pessoas com doença mental. Apesar da evolução e da maior normalização dos problemas psíquicos que tem existido em Portugal, há ainda uma grande injustiça social para com as pessoas que sofrem com problemas desta natureza. A ignorância em relação às perturbações mentais e ao seu tratamento é também ainda evidente.

            Todo o estigma provém do medo do desconhecido e sendo estas doenças de um órgão tão complexo como o cérebro, que não é visível aos olhos de todos, origina-se a falta de conhecimento e compreensão pela população em geral. O estigma da doença mental repercute-se de forma nociva nos próprios doentes, retardando e impedindo-os de procurar os cuidados de saúde adequados.

            As doenças mentais devem ser encaradas do mesmo modo como se olha para as doenças físicas.  Tal como as doenças de coração ou pulmonares, sabe-se que muitas doenças mentais têm causas definidas, que requerem cuidados e tratamento. As doenças mentais tratam-se. Quando os cuidados e o tratamento são prestados, é de esperar uma melhoria ou recuperação.

            Paralelamente, aqueles que sofrem de uma doença mental escondem-se frequentemente atrás de uma “máscara”, quando se candidatam a novos empregos, por exemplo. À pergunta se já tiveram um burnout, respondem que não. Se um patrão lhes pergunta a razão de uma falta mais prolongada, respondem que foi uma viagem. Se têm problemas com uma nova medicação, explicam ser um tratamento para a diabetes ou para as enxaquecas. Esta necessidade resulta do receio de se ser rejeitado e desvalorizado, devido a uma doença que não é compreendida.

            As redes sociais e os meios de comunicação podem contribuir para diminuir o estigma, promovendo a compreensão e a educação do grande público. Todos nós podemos também contribuir para criar uma comunidade mais inclusiva e empática. Pequenos passos podem fazer a diferença, tais como procurar compreender a complexidade da saúde e da doença mental, recorrendo a fontes credíveis de informação; encarar a doença mental como parte da diversidade humana; lembrar que uma em cada quatro pessoas poderá experienciar problemas de saúde mental ao longo da sua vida e que não está sozinho/a; reconhecer que ter uma doença mental não é sinónimo de ser doente mental; desafiar as atitudes estigmatizantes dos outros, como família e amigos, ou mesmo em contextos mais alargados, ganhando voz na luta contra o estigma.

            As pessoas devem ser julgadas pelos seus méritos próprios e não pela doença de que sofrem e pelo estigma a ela ligado. Aliás, quando a saúde mental é corretamente acompanhada, sobressai de novo a pessoa saudável numa grande percentagem de doentes. Houvesse os meios humanos, institucionais e terapêuticos à altura das necessidades!

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