ARTIGO DE OPINIÃO: A propósito da João

13/05/2021 19:30

Tinha outra coisa pensada para dizer, para escrever… Uma coisa mais da moda. Que tinha a ver com a precariedade da nossa profissão, com a falta de apoios, com a falta de suporte institucional, com a falta de estatuto profissional, de solidariedade, de noção, de respeito, de consideração eu sei lá… com a falta de tantas coisas por causa desta outra coisa que é ser artista em Portugal.

Mas, de repente, a João morreu. Recebi a notícia num lugar muito próprio, eu diria. No meio dos artistas: num ensaio com músicos e cantores para a próxima peça de teatro musical que tentarei levar a cena, neste caso, em Carregal do Sal.

E, de repente, a minha azia transformou-se em nada, porque a João morreu. E quando um artista morre, eu acredito mesmo que morre mais um bocadinho da Esperança que o mundo ainda tinha. Quando um artista morre, eu acredito que cai uma estrela do firmamento e o mundo fica mais sombrio. E quando um artista morre, eu sei que o sonho se encolhe num canto solitário para chorar por perder outra vez quem tão bem sabe dar-lhe as asas.

A propósito da João, pensei no Teatro de Revista e nesta mania tão recorrente no meio artístico de rotular os artistas de teatro e qualificá-los consoante o género teatral que representam ou representaram. Como se houvesse um podium olímpico artístico onde só tivessem lugar Shakespeare, Tchékhov, Zola, Tolstói, Brecht, Shaw, Lessing e tantos outros considerados os únicos. Uma espécie de primeira divisão da Liga com árbitros comprados e tudo, se preciso for. Como se o Maria Vitória fosse o casebre e o D. Maria fosse a mansão.

A João foi uma belíssima representante do Teatro de Revista que sempre defendeu. Nunca se importou com o rótulo. Vestia-o como uma pele. Usava-o como uma faixa de Miss Universo. O tempo provou a sua versatilidade no teatro, na televisão e no cinema. Calou algumas bocas. Outras não. Mas essas nunca se calam. Têm esse vício de destilar fel. De chamar de nobre, superior e clássico o teatro que não é de revista, que não é musical, que não é comercial.

O teatro não tem partidos, nem vai a eleições. E se tem ou se vai, não devia. O teatro devia ter pais, em vez de padrinhos. Devia ter filhos, em vez de enteados. Devia ter talento, em vez de cunhas. O teatro devia ter um palco, em vez de uma montra.

O palco é o chão de qualquer artista de teatro. E sobe a ele quem o merece.

E a João mereceu. Assim como o teatro mereceu a nossa Maria João Abreu.

A propósito da João, hoje vou sonhar com asas de condor e garras de falcão.

 

 

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