ARTIGO DE OPINIÃO: A conversa das mulheres

23/02/2022 18:30

Encontraram-se no meu pensamento, sem que uma tivesse de esperar pela outra. Tiraram algumas ideias pendentes da frente – não fossem elas cair de repente e deixar a conversa a meio – e arrumaram outras e depois sentaram-se no espaço reservado às ideias que não nos saem da cabeça. Uma vestia uma saia verde, a outra vinha descalça, as sandálias do frade morto não chegaram às últimas páginas, ambas com passos vagarosos, que já não era possível chegar tarde outra vez. Uma nada trazia, a outra era como se nada trouxesse, não tiraria o bocado de pão do alforge para o levar à boca, os vazios não se deixam ver e de vontades já não era tempo. Uma falou do inverno em Paris, a outra de estações não falou, que lhes perdera a conta, perguntou a primeira se valia a pena sonhar, respondeu a segunda que ainda mais se o sonho fosse o mesmo, que as passarolas não se constroem sozinhas nem o mundo se seguraria na sua órbita. Calaram-se ambas por um momento, mas as pausas também fazem parte da conversa e seguro continuou o mundo, preso ao que as mulheres diziam. Depois, a mulher da saia verde disse à mulher de «cabelo cor de mel sombrio», Que grande poder o teu, esse que tens de veres as pessoas por dentro, e respondeu a mulher que saia verde não tinha, Poder maior tinha o teu homem, que obrigava «todos os outros homens a reverem-se por dentro.» O meu poder não o escolhi e não o quereria; o teu homem poderia não o ter querido, mas escolheu-o.

Calaram-se novamente. Uma mais velha, a outra mais nova, ambas envelhecidas. Uma guarda o uniforme, a outra o espigão guarda, por ele tendo sido guardada, que nas memórias ninguém toca e a elas todos têm direito, ricos ou pobres, e para o fogo não há diferença entre generais e soldados, entre homens com as duas mãos e outros manetas. Era de noite, disse uma. Sim, era quase noite, disse a outra. Felizmente, havia luar, disse uma. Haverá sempre, disse a outra, felizmente ou não, há coisas que nunca mudam. O fogo extinguiu-se, mas o amor ainda arde.

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