ARTIGO DE OPINIÃO: A Boroa (Broa) de Lafões

13/07/2021 19:30

Desde tempos imemoriais que o pão ocupa um papel fundamental na alimentação popular, presente nas mesas mais pobres, pouco a pouco na mesa dos ricos. O pão acompanha a evolução da humanidade desde a grandiosa revolução neolítica, abrindo caminhos à sedentarização humana, os cereais cultivados proporcionando alimento quase permanente para as bocas humanas e engorda dos animais. Na região de Lafões o pão de milho, vulgarmente denominado por broa de milho, ocupa um lugar especial à mesa. 

As memórias dos mais velhos começam por nos contar que a boroa/broa “matou a fome a muita gente” na região de Lafões. Conta-se que o pão branco, feito à base de farinha de trigo, era alimento dos mais ricos, e que o pão escuro e tosco, feito de milho e de centeio, era o sustento das bocas mais pobres. Quando os tempos eram mais duros, a broa podia ser a única comida que havia para colocar sobre a mesa, acompanhada de um naco de toucinho e de um copo de vinho.

A tradição de cozer a broa na região vem de há muitos séculos, é mesmo anterior à formação de Portugal. Por muito tempo, a tradição e a receita da broa permaneceram intactas, até que os moinhos de Lafões deixaram pouco a pouco de moer, e os estabelecimentos industriais passaram a vender pão, feito diariamente, a preços baixos. Atualmente são escassos os moinhos ainda em atividade, junto aos cursos de água de montanha ou junto ao leito dos rios. Até aos finais do século XX, a maioria das famílias de Lafões ainda cozia, nas suas próprias casas, o seu pão tradicional, com a sua receita de família e com os cereais plantados e colhidos nas suas propriedades. Era assim em casa de meus avós e depois na casa de meus pais, a massa amassada numa arca de madeira, depois deixada a fintar com uma cruz marcada ao meio das bolas a fermentar. 

Os ingredientes eram sempre os mesmos: água morna, sal, fermento do pão anterior, farinha de milho branco (milho regional, de grão miúdo e redondo) e farinha de centeio. Quanto mais centeio levasse, mais escuro e amargo seria o pão. A qualidade dependia da pureza das farinhas e do cuidado ao peneirá-las … mas o segredo estava nas orações que abençoavam as broas, no forno de lenha e nas mãos que trabalhavam a massa. 

Bem cedo, com uma taleiga (saco de pano em linho) à cabeça ou no galope do “burreco”, seguia-se a pé até ao moinho e lá se trocava certa quantidade de cereais em grão por farinha. O moleiro recebia certa quantidade de cereais em troca do trabalho; em regra um corredor (aproximadamente 1kg) por cada saco. No dia de cozer a broa, bem cedo, varria-se o forno com uma vassoura de giesta ou buxo, colocava-se a lenha e deixava-se ficar a arder. O forno deveria permanecer bem quente até ao momento em que a broa entrasse e, por regra, quando as paredes ficavam brancas isso indicava que a temperatura estava correta.

Peneirar as farinhas, acender o forno e amassar a broa era uma função que cabia às mulheres, que eram fortes de braços e de devoção. Enquanto imprimiam uma cruz na massa com a mão direita, diziam: “ – Que Deus te abençoe e te faça crescer”.  Depois, metiam as broas no forno com uma pá e fechavam a pequena entrada com uma tampa de ferro. Para garantir que o forno ficava bem vedado cobriam-se as frestas com excrementos de vaca recolhidos nos currias. Até se comentava que trazia melhor sabor à broa. 

Sempre que sobrava massa, faziam-se pequenas bôlas (com o mesmo formato das boroas, mas espalmadas) que eram recheadas com toucinho ou com sardinhas. Após hora e meia, as broas eram retiradas do forno e batiam-lhes na base para saber se estavam prontas. Se o som fosse oco, a broa estava cozida. Pousavam-se para arrefecer, viradas ao contrário e, muitas vezes, eram guardadas num local alto, sobre uns arames, para que as crianças não sentissem a tentação de lhes chegar. Como desculpa, diziam-lhes que estavam ali para “ficarem guardadas dos ratos”!

A nossa broa era, comummente partida com a mão e, tradicionalmente, acompanhada com um naco de toucinho, fatias de presunto, enchidos ou queijo de cabra e ovelha. Servia também para engrossar ou encorpar as sopas. Bem conhecidas de muitos eram as “sopas de cavalo cansado”: nacos de broa migados numa tigela, misturados com vinho tinto e açúcar.

Relembrar estas histórias é uma obrigação de homenagear o nosso povo e as nossas tradições. Mas a verdade seja dita: a verdadeira homenagem à broa de milho de Lafões seria contar esta história junto ao forno quente, enquanto se saboreavam estas côdeas tão ricas e densas, acompanhadas com um copo de vinho de Lafões, sobre uma mesa ladeada de amigos. Ainda hoje se encontra boa e estaladiça broa de Lafões em Vouzela, Santa Cruz da Trapa, Pindelo dos Milagres, e outras localidades da região. 

Especiais agradecimentos a Manuela Morais e Nuno Lopes, Vouzela.

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