A humildade do artista ou a “arte” de ser humilde?

05/05/2022 18:31

Li há pouco tempo um artigo sobre a poderosa arte de se ser humilde. Apesar de não falar dos artistas, nem da arte no sentido mais concreto da expressão de um ideal estético por processo criativo, seja qual for a sua natureza, achei curioso, porque, quando aplicado a ela (arte) e a eles (artistas), serve igualmente de promissor alimento para o pensamento autocrítico.

Tinha por hábito passar aos meus alunos uma mensagem de que “todos nós nascemos com um talento”, porque acredito realmente nisso. Temos todos uma estrelinha que nos faz brilhar em algo especialmente e que nos destaca de alguma forma – não para sermos melhores ou superiores aos demais, mas porque evidencia aquilo que em nós existe de mais natural e que acredito que nasceu connosco com o propósito de uma missão. Como se fossemos morrer, sem realmente sermos quem realmente somos, ao desperdiçarmos ou adormecermos indefinidamente o que nascemos para ser. Como se cuspíssemos na cara da própria Mãe Natureza a rejeitar essa capacidade específica de fazer bem ou melhor qualquer coisa. O talento – qualquer um – é uma estrela, sim. Brilha para nos iluminar. E esse nosso brilho passa a existir como uma pele, sem qualquer necessidade de ofuscar o brilho da pele de mais ninguém. O talento faz-nos brilhar porque, ao fazer-se uso pleno dele estamos mais perto de uma existência mais verdadeira, mais autêntica e, por isso, mais honesta.

Costumava ensinar isso aos meus alunos. Achava eu, na altura, que era importante eles perceberem que não fazia mal terem menos talento numa área, desde que não desistissem de procurar o lugar onde a estrela de cada um deles estava adormecida. Que era realmente maravilhoso poder aprender com os mais talentosos quanto era bom poder ensinar os menos talentosos. Que na Arte e na Vida não tem de existir essa hierarquia de qualidade humana. Que a vida devia ser mesmo assim: o constante equilíbrio entre tudo o que cada um tem para oferecer e partilhar. Mas a verdade é que é difícil combater a plasticidade artificial, mas incrivelmente sedutora dos chamados “15 segundos de fama!”. A tentação irresistível de procurar a estrela num lugar que é feito para fazer brilhar qualquer coisa e qualquer um num ecrã qualquer, mesmo que não brilhe de brilho natural. Nesse lugar, não há humildade.

A humildade, enquanto valor moral, é espontânea. Não se procura. Não se finge. E certamente, não se apregoa. A humildade brilha como a nossa estrela. Dentro de nós e não para fora de nós. Resulta também de uma consciência de que o mundo e a vida são uma constante aprendizagem e procura de respostas. A humildade é um estender a mão para ajudar com a mesma simplicidade com que se estende a mão a pedir ajuda.

Então, se for realmente humilde, não faz mal o artista sentir alguma vaidade modesta pelos objetivos que vai alcançando durante o longo e difícil caminho que vai sendo a sua constante e eterna aprendizagem.

Se assim for, o artista pode brilhar com naturalidade, ao mesmo tempo que, sendo humilde, não ofusca. E essa, para mim, é a verdadeira humildade do artista. O que é a Arte, se não uma irreversível partilha? O que é a Arte, se não uma supernova, de cuja explosão nascem milhões de novas estrelas?

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